SOU MAIS POP TV ENTREVISTA: NEGROMAR CELEBRA 1 ANO DO PROJETO EXPERIMENTAL “RAP COM MPB”

Música

Hoje o Sou Mais Pop TV mergulha em um dos projetos mais ousados e autorais a surgir de Minas Gerais, mais especificamente da região do Vale do Aço. NegroMar, artista que vem ganhando atenção, celebra um ano do lançamento de “RAP COM MPB” — uma obra que é, ao mesmo tempo, um manifesto afrodiaspórico, um mapa afetivo das periferias e uma fusão consciente de ritmos que redesenha fronteiras. Em uma conversa exclusiva, NegroMar desmonta o processo criativo do álbum, fala sobre a potência da ancestralidade, a importância de nomes como Conceição Evaristo e Djonga na jornada, e explica como o Funk, o Rap e a MPB se encontram para criar um som que é pura identidade. Confira a entrevista completa.

ENTREVISTA | NEGROMAR – 1 ANO DE “RAP COM MPB”

  1. Para começar, como você definiria “RAP COM MPB”? É um álbum, um manifesto, um diário sonoro? O que ele representa para você hoje, um ano depois?
  • Hoje, com a maturidade que conquistei ao longo de todo esse tempo, enxergo Rap com MPB como uma pesquisa fonográfica afrodiaspórica, que se comunica com o presente, fala do passado e cumprimenta o futuro. O álbum representa a materialização musical de vivências minhas, sobretudo nos 3 anos que antecederam sua criação.
  1. Em “Bota, Joga!”, você canta “só no finin, só no finin”, uma referência a essa levada específica do funk. Como essa escolha rítmica dialoga com a proposta do álbum de fundir influências e criar uma identidade sonora própria?
  • Primeiro, é fundamental explicar o termo. Naquele ano de 2022, quando comecei a produzir o álbum, o funk estava ganhando cada vez mais espaço no mundo, com grandes artistas internacionais usando samples e referências do nosso ritmo. Como sempre consumi muito funk, desde o início disse ao meu produtor, mano Luizin, que queria uma faixa nesse ritmo no projeto. O “finin” ou “fininha” é um subgênero musical específico do funk, assim como existem o “funk consciente”, o “funk ostentação” e o “funk melody”. Artistas que eu admirava e ouvia muito na época, como minha madrinha musical MC Preta Lua e o DJ DG do P.L., são expoentes dessa levada. Minha escolha de citar “só no finin” é, portanto, uma referência cultural e artística direta a esse estilo, uma forma de trazer essa vertente genuína da música periférica para dentro da fusão do álbum e representar com autenticidade um som que é parte do nosso cotidiano.
  1. O álbum nasce em um momento de múltiplos lutos e transformações. Como a música se tornou seu instrumento de cura e externalização dessas dores?
  • Sempre digo que o álbum nasceu de uma perspectiva de colocar pra fora, sem que de dentro saísse. Então eu vejo Rap com MPB como um verdadeiro instrumento da ancestralidade para que me mantivesse lúcido, minimamente saudável, num momento de muitos desafios.
  1. “MIM” é uma das faixas mais marcantes. Você diz que ela era como uma “cartilha” que você ainda não tinha força para seguir na época. Hoje, o que você diria para o NegroMar de maio de 2023?
  • Uau, essa é boa, hein! Eu diria pro NegroMar que no final de tudo, tudo daria certo, e que mesmo frágil, a ancestralidade me fazia forte, resiliente, brilhante, me impulsionando a caminhar a cada dia mais, ainda mais em tempos de terrenos espinhosos. Daria tudo certo.
  1. A espiritualidade e a ancestralidade são pilares centrais no projeto. Como a descoberta da conta de Obaluaê e a conexão com os orixás influenciaram não só as letras, mas também seu processo de superação?
  • Ótima pergunta! Eu sinto que a descoberta da conta de Obaluaê, que posteriormente foi parar na minha música ‘Mim’, foi a materialização da ancestralidade me dizendo: Você não é filho de chocadeira, não tá largado, sozinho no mundo, e isso foi muito importante, sabe? Porque eu me sentia muito só, muito, então aquela demonstração foi fundamental para que eu seguisse, e seguisse acreditando que eu vinha acompanhado. É o que eu canto: Entre becos e vielas eles tão aqui para me ver.
  1. “Escrevivência” é um termo forte, criado por Conceição Evaristo. Como você traduz esse conceito em som e letra, especialmente ao falar de periferia, branquitude e autoafirmação?
  • Eu simplesmente dou o meu significado sob minha perspectiva, sabe? Quando eu fiz Escrevivência, eu quis dizer que nossas obras, nossas potências, o conhecimento ancestral de nosso povo deve estar dentro da universidade pública também, porque foram os nossos ancestrais que construíram este país. Então, quando digo que o Djonga deveria estar sendo estudado de maneira mais abundante pela UFOP, eu tô dizendo que devemos estar lá de maneira pulsante, viva, como protagonistas de nossas histórias. Citar Conceição foi uma forma de referenciá-la, pois a amo, e tenho muita admiração por ela. As Escrevivências dela, as minhas, e a de todas as pessoas negras se cruzam, se entrelaçam de certa forma, e eu fico muito feliz por isso, e além de tudo, da minha música ter chegado até ela.
  1. Victor Katriel é uma presença constante no álbum, desde as letras até o áudio emocionante em “S.A.L.V.Y”. Como ele segue vivo na sua caminhada artística e pessoal?
  • Pow, mano Vitin é meu alicerce, meu amigo, melhor amigo, meu irmão. Nada isso aqui existiria sem ele, esse som, essa postura, essa entrevista, nada! Nós conversávamos tanto sobre música, dinheiro, fama, sonhos, tanto, então ocupar uma pluralidade de espaços hoje, sobretudo de poder, dentro e fora da música, é uma forma de manter nossas trocas e seus ensinamentos vivos. Tenho certeza de que de onde ele está, ele muito se alegre do que tenho construído.
  1. O álbum dialoga com referências que vão de Racionais a Maria Bethânia, de Djonga a Bell Hooks. Como essas influências diversas se encontram no “RAP COM MPB”?
  • O famoso junto e misturado, haha! Poder unir essas sonoridades, que foram fundamentais na minha construção musical, é maravilhoso. Eu amo Rap, amo uma MPB, porque esses gêneros musicais embalaram a construção da minha vida, sobretudo familiar, então eu guardo com muito carinho, com muito afeto, com muito amor todas estas referências e conexões, porque elas vem do coração.
  1. Se você pudesse resumir em uma palavra o que este primeiro ano do álbum representou, qual seria? E o que vem pela frente?
  • Resumiria na palavra Mim, porque no final de tudo, meu amigo, só sobra você com você mesmo, no seu íntimo, naquilo que fica lá dentro, guardado em seu coração. Sobre o que vem pela frente, ah, desenvolvo trabalhos em várias frentes, né mano?! Eu amo música, respiro música e não consigo imaginar uma vida sem música, mas gosto de ter inspiração pra fazê-la. No momento tô vivendo muito, e vivendo coisas novas aqui em BH. Então assim, a partir destas vivências, acredito que novas coisas irão surgir, e estou muitA animação para pensar novas perspectivas em 2026.
  1. Por fim, qual é a mensagem que você espera que quem escute “RAP COM MPB” leve para a vida?
  • Eu vejo a música e a interpretação dela numa perspectiva muito pessoal, sabe?! A música é isso, saí de dentro de nós por um motivo, ecoa pelo mundo, e é interpretada pelo ouvinte sob a égide de suas vivências, não conseguimos enquadrá-la num rito formalizado. Mas mensagem que eu deixo é: faça de coração que vai dar bom, e acredite que o tempo ruim passará!

CONCLUINDO
Em “RAP COM MPB”, Negromar não apenas fundiu gêneros; costurou memória, território e futuro. Cada faixa é um capítulo de uma pesquisa que coloca a periferia no centro, não como tema, mas como lugar de invenção e potência. Um ano depois, o projeto segue ecoando como uma prova de que a música brasileira mais vital é aquela que ousa misturar suas próprias raízes, sem pedir licença. NegroMar segue caminhando, com as bençãos de Dona Maria, a força de Obaluaê e a presença de Vitin na jornada, e nós ficamos na torcida para o que vem por aí em 2026. O álbum completo está disponível nas plataformas digitais.

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