Vertov e o Cine Olho: Uma Nova Forma de Ver o Mundo.

Cinema

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Marcelo Kricheldorf

O conceito de Cine-Olho (Kinoglaz), formulado pelo cineasta soviético Dziga Vertov na década de 1920, não foi apenas uma técnica cinematográfica, mas uma filosofia radical que buscava redefinir a percepção humana através da máquina.
A premissa central de Vertov era que a lente da câmera possuía uma capacidade de visão superior ao olho humano. Enquanto o olho biológico é limitado pela fisiologia e pelo movimento físico, a câmera — o “olho mecânico” — pode estar em qualquer lugar, ver em câmera lenta, acelerar o tempo ou capturar detalhes microscópicos. Para Vertov, o Cine-Olho era uma ferramenta para decifrar o mundo de forma mais objetiva e profunda do que a visão subjetiva permitiria.
A Crítica ao Cinema Narrativo e o Drama “Ópio”
Vertov era um crítico ferrenho do cinema de ficção de Hollywood e das narrativas teatrais. Ele chamava esses filmes de “venenos” ou “ópio do povo”, argumentando que a encenação e o roteiro eram formas de enganar a percepção. O Cine-Olho propunha o “cinema-verdade” (Kino-Pravda), capturando a “vida de improviso” (jizn vrasplokh), sem atores, cenários ou roteiros artificiais.
Inserido no contexto da Vanguarda Russa, o Cine-Olho bebia diretamente do Futurismo, celebrando a máquina, a velocidade e a industrialização. Politicamente, o conceito era uma arma ideológica: Vertov acreditava que, ao mostrar a realidade nua e crua do trabalho e da sociedade socialista, o cinema ajudaria a construir a consciência do proletariado.
A montagem era o coração do Cine-Olho. Não servia para contar uma história linear, mas para criar associações intelectuais e visuais. Através da montagem rítmica e acelerada, Vertov organizava o caos da vida cotidiana em uma estrutura lógica e poética. Em sua obra-prima, Um Homem com uma Câmera (1929), a montagem demonstra como o cineasta é, simultaneamente, um observador e um construtor da realidade.
O Cine-Olho transformou a cidade moderna no grande palco da existência. A câmera de Vertov percorria fábricas, ruas, hospitais e praças, documentando o pulsar urbano. Essa abordagem estabeleceu as bases para o cinema documentário moderno, influenciando diretamente o movimento Cinéma Vérité francês nos anos 60.
O legado do Cine-Olho é visível hoje em diversas frentes:
Documentário Social: A busca pela verdade sem artifícios.
O uso de cortes rápidos e ângulos inusitados, comuns em videoclipes e publicidade.
A discussão sobre como as máquinas (hoje, algoritmos e câmeras de vigilância) mediam nossa percepção do real.
Por.fim, o Cine-Olho de Dziga Vertov foi uma tentativa heroica de fundir homem e máquina para alcançar uma compreensão total da vida. Mais do que uma técnica de filmagem, foi um manifesto pela emancipação do olhar através da tecnologia, mantendo-se como um pilar essencial para qualquer estudo sobre a estética e a ética da imagem cinematográfica.

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