Em 2016, na Escola Livre de Cinema, tive o privilégio de estudar Orson Welles sob a orientação do professor Milton Biscaro. Foram 11 filmes assistidos e inúmeras análises detalhadas que revelaram as marcas inconfundíveis deste grande diretor, traços que se tornaram sua verdadeira assinatura artística.
George Orson Welles (Kenosha, 6 de maio de 1915 – Los Angeles, 10 de outubro de 1985) foi ator, diretor, escritor e produtor norte-americano. Poucos artistas conseguiram transitar com tanta força entre o teatro, o rádio e o cinema quanto ele. Visionário, provocador e muito à frente de seu tempo, Welles transformou a forma de contar histórias visuais e emocionais. Sua obra não apenas influenciou o cinema moderno, mas também redefiniu o papel do diretor como autor e criador de mundos.
O início: teatro e rádio: Antes de chegar a Hollywood, Welles já era um nome celebrado no teatro. Logo depois, sua transmissão radiofônica de A Guerra dos Mundos (1938) causou verdadeiro pânico nos Estados Unidos, uma prova do poder da arte sobre o imaginário coletivo.
O nascimento de uma nova linguagem cinematográfica
Com apenas 25 anos, Welles dirigiu Cidadão Kane (1941), um marco absoluto do cinema. A fotografia de Gregg Toland e o uso inovador de planos profundos, ângulos baixos e iluminação expressionista criaram um novo conceito visual.
Nada em Kane era casual: a arquitetura dos cenários refletia a solidão do personagem, e os jogos de luz revelavam sua alma fragmentada. Welles mostrou que o cinema podia ser, ao mesmo tempo, pintura, teatro e filosofia.
A linguagem visual de Welles: Seus filmes são um verdadeiro estudo sobre luz, sombra e composição.
O uso dramático da iluminação — com contrastes fortes entre claro e escuro — remete ao Expressionismo Alemão. As sombras e reflexos em espelhos funcionavam como intermediários entre o real e o simbólico.
Os ângulos contra-plongée (filmagem de baixo para cima, mostrando o teto) aumentavam a sensação de opressão e poder, fazendo as personagens parecerem maiores e mais eloquentes.
Welles trabalhava com decupagem precisa, explorando: Planos abertos e campo/contracampo nos diálogos;
Evolução temporal construída pela montagem;
Planos-sequência sem cortes, compensados pela imobilidade da câmera ou das personagens;
Profundidade de campo, distribuindo ação em três eixos — o primeiro plano, o meio e o fundo — para intensificar o drama.
A construção do sentido: Para ele, cortar demais significava perder a realidade da cena.
A composição de quadro era pensada como pintura: a posição e o movimento das figuras humanas revelavam o estado emocional da narrativa.
Welles ligava um plano a outro por elementos visuais ou sonoros — um copo sobre a mesa podia se transformar, por corte, na roda de um carro em movimento, criando um elo poético entre duas ações.
Outra técnica constante era a elipse de conteúdo: ele não mostrava diretamente certas ações, preferindo sugeri-las por meio de sons ou reações das personagens. Essa escolha reforçava a força simbólica de cada cena.
A estética da sombra e do poder: Para Welles, a luz era também uma personagem.
O contraste entre claridade e escuridão expressava culpa, vaidade, corrupção e mistério. Essa estética – inspirada tanto pelo teatro quanto pela pintura renascentista – influenciou cineastas como Coppola, Scorsese e Nolan.
Ele acreditava que o olhar do espectador devia ser desafiado, nunca acomodado.
Um legado que transcende o tempo: Mesmo incompreendido em vida, Orson Welles deixou um rastro inapagável. Sua ousadia estética e narrativa nos ensina que a arte precisa provocar, reinventar e questionar.
Assistir a um filme seu é entrar em um labirinto de espelhos, onde cada reflexo revela mais sobre nós do que sobre o próprio personagem.
“Mesmo quando não havia nenhuma esperança, sempre procurei dar o melhor de mim.”
— Orson Welles
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Matéria maravilhosa,parabéns Loide Almeida