O Processo de Criação da Saga O Poderoso Chefão.

Cinema

Marcelo Kricheldorf

A produção de O Poderoso Chefão (1972) foi um processo, marcado por tensões constantes entre um jovem e inexperiente diretor, Francis Ford Coppola, e os executivos do estúdio Paramount Pictures, que duvidavam de sua visão. A saga que se tornaria um marco do cinema americano nasceu de uma conjunto improvável de elementos, superando inúmeros obstáculos criativos e de produção.
O filme é uma adaptação do romance best-seller de Mario Puzo, publicado em 1969. O livro oferecia uma narrativa detalhada da família mafiosa Corleone, e Coppola, endividado na época, aceitou o projeto com a condição de poder co-escrever o roteiro com o próprio Puzo e manter a ambientação de época, algo a que o estúdio inicialmente se opunha para cortar custos.
A colaboração resultou em um roteiro que se aprofundou na psicologia dos personagens, focando na transformação de Michael Corleone de um herói de guerra relutante em um impiedoso Don. Curiosamente, Puzo, apesar de ser um romancista aclamado, admitiu que não tinha experiência prévia em escrever roteiros e só comprou um livro sobre “como escrever roteiros” após ganhar dois Oscars pela adaptação.
As maiores dificuldades de produção giraram em torno das escolhas de elenco de Coppola, que foram recebidas com forte resistência pela Paramount.
O estúdio considerava Brando, então com 47 anos, um “ator-problema” e difícil de se trabalhar, preferindo nomes como Anthony Quinn, Burt Lancaster, Laurence Olivier, George C. Scott, entre outros.Coppola lutou incansavelmente por Brando, que acabou fazendo um teste de tela (algo humilhante para um ator de seu calibre) e usou seu método de atuação para criar a icônica caracterização de Don Vito Corleone.
A escolha de Pacino para Michael Corleone foi ainda mais controversa. O estúdio queria um ator mais conhecido, como Robert Redford ou Burt Reynolds, achando Pacino “baixo demais” para o papel. Coppola, que já havia trabalhado com Pacino, o via como o único ator capaz de transmitir a complexidade e a frieza contida de Michael. Pacino teve que fazer inúmeros testes e quase desistiu do processo devido ao estresse.
A tensão nos sets era constante, com Coppola sempre sob a ameaça de ser demitido. Ele descreveu a experiência como “aterrorizante”. Produtores e até membros da máfia real (que acompanharam de perto as filmagens) foram forças externas que moldaram o caótico, mas, no final, vitorioso processo.
Coppola, com pouco mais de 30 anos na época, representou a ascensão da “Nova Hollywood”, uma geração de diretores que desafiou o sistema de estúdios e impôs suas visões autorais. Sua persistência e controle criativo (incluindo a batalha pelo final autoral em certas decisões) foram cruciais para a integridade do filme, que se tornou um divisor de águas na indústria cinematográfica, salvando a Paramount da falência e redefinindo o cinema americano.
A estética do filme, com sua paleta de cores escuras e o uso magistral de sombras pelo diretor de fotografia Gordon Willis (apelidado de “Príncipe das Trevas”), criou uma atmosfera de mistério, corrupção e lealdade que complementava perfeitamente os temas da história. Essa abordagem visual foi revolucionária e se tornou parte indissociável da identidade da saga.
A saga é frequentemente comparada às tragédias shakespearianas, como Macbeth ou Rei Lear, devido à sua exploração do poder, traição e a queda moral de um herói trágico, Michael Corleone. A estrutura da trilogia, especialmente a justaposição temporal entre a ascensão de Vito e a queda de Michael em O Poderoso Chefão Parte II, solidificou seu status como uma obra épica e coerente.
O Poderoso Chefão transcendeu o gênero de máfia, tornando-se um duradouro legado cultural que influenciou inúmeras obras subsequentes e até mesmo a forma como a máfia real se via, popularizando termos como “The Godfather”. A trilogia como um todo permanece um estudo profundo sobre a família, poder e o sonho americano corrompido.
A saga O Poderoso Chefão (trilogia) recebeu um total de nove Oscars (Academy Awards) a partir de 28 indicações no total. Os prêmios foram distribuídos entre os dois primeiros filmes, pois o terceiro não ganhou nenhuma estatueta.

Aqui está o detalhamento por filme:

O Poderoso Chefão (1972)⭐⭐⭐⭐⭐

O primeiro filme da saga ganhou três Oscars:

  • Melhor Filme
  • Melhor Ator (Marlon Brando, que recusou o prêmio em protesto)
  • Melhor Roteiro Adaptado (Francis Ford Coppola e Mario Puzo)

O Poderoso Chefão: Parte II (1974)⭐⭐⭐⭐⭐

A aclamada sequência ganhou seis Oscars, tornando-se a primeira sequência a vencer a categoria de:

  • Melhor Filme
  • Melhor Diretor (Francis Ford Coppola)
  • Melhor Ator Coadjuvante (Robert De Niro)
  • Melhor Roteiro Adaptado (Francis Ford Coppola e Mario Puzo)
  • Melhor Direção de Arte
  • Melhor Trilha Sonora Original

O Poderoso Chefão: Parte III (1990)⭐⭐⭐⭐

O terceiro filme da série recebeu sete indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor, mas não ganhou nenhuma estatueta.

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