Análise do Filme: O Franco Atirador (1978)

Critica de Filmes

O Crepúsculo do Sonho Americano

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1978, apenas três anos após o fim oficial do conflito no Sudeste Asiático, “O Franco Atirador” (The Deer Hunter) não é apenas um filme sobre a Guerra do Vietnã; é uma elegia à perda da inocência americana e um estudo devastador sobre como a violência estatal fragmenta a identidade individual e coletiva. Sob a direção ambiciosa de Michael Cimino, a obra transcende o gênero de guerra para se tornar uma crônica trágica sobre a classe trabalhadora e as cicatrizes invisíveis do trauma.
A narrativa é construída em três partes de forma contrastante. O primeiro ato, estendido e quase documental, imerge o espectador na rotina de uma comunidade de imigrantes ortodoxos russos em Clairton, Pensilvânia. A longa sequência do casamento de Steven não é apenas um exercício estético, mas uma fundação necessária: estabelece a vitalidade, os laços de lealdade e a pureza de um grupo que acredita nos valores tradicionais americanos.
A transição abrupta para o Vietnã rompe essa estabilidade. O segundo ato é marcado pela brutalidade sensorial, onde o cenário bucólico das montanhas da Pensilvânia é substituído pela opressão claustrofóbica da selva e das gaiolas de bambu. O retorno, no terceiro ato, encerra o ciclo de forma melancólica, mostrando que, embora os corpos possam voltar, a alma daquela comunidade foi permanentemente alterada.
O elemento mais controverso e potente do filme é a roleta russa. Embora historiadores debatam a precisão factual do uso desse “jogo” no Vietnã, Cimino a utiliza como uma metáfora brilhante para a natureza aleatória e absurda da guerra. A roleta russa despoja o indivíduo de seu próprio controle; a vida e a morte tornam-se questões de puro azar, uma crítica contundente à forma como o sistema militar descarta vidas humanas como se fossem fichas de aposta.
Neste contexto, a perda da identidade é personificada em Nick (Christopher Walken). Sua transição de um jovem romântico para um corpo vazio que sobrevive apenas para repetir o gatilho em Saigon é a representação máxima da desumanização. Ele se torna o símbolo do veterano que “ficou” na guerra, mesmo estando fisicamente vivo.
“O Franco Atirador” é um dos poucos filmes que examina o impacto da guerra especificamente na classe operária. Os protagonistas são siderúrgicos, homens cujo valor é medido pela força física e pela lealdade ao grupo. O filme critica, de forma implícita, como o sistema político utiliza esses homens como bucha de canhão. Enquanto a elite decide a geopolítica em Washington, são os filhos das fábricas de aço que enfrentam o horror. A fábrica, que antes era o sustento, torna-se uma imagem especular do inferno após o retorno de Michael (Robert De Niro), evidenciando que o mundo industrial e o mundo militar são engrenagens do mesmo sistema explorador.
A direção de Michael Cimino, aliada à fotografia de Vilmos Zsigmond, utiliza o contraste visual para reforçar a narrativa. As cenas de caça ao cervo no início do filme representam um ritual de controle e honra. Após a guerra, Michael não consegue mais matar o animal; a pureza do esporte foi corrompida pela memória da matança humana. A fotografia transita entre o dourado outonal da Pensilvânia e o verde úmido e sangrento do Vietnã, criando uma dicotomia visual entre o lar e o inferno.
A trilha sonora, pontuada pela melancólica “Cavatina”, substitui o estrondo das explosões pelo silêncio do luto. O encerramento do filme, com os sobreviventes cantando “God Bless America”, é uma das cenas mais ambíguas do cinema. Não se trata de um patriotismo cego, mas de um lamento; é o canto de pessoas que precisam acreditar em algo para não sucumbirem ao vazio deixado pela perda de seus amigos e de sua própria fé no país.
“O Franco Atirador” permanece como uma obra fundamental por sua recusa em oferecer respostas fáceis ou redenção patriótica. Ele expõe a fragilidade da psique humana e a crueldade de um sistema que envia seus cidadãos para o caos sem prepará-los para o silêncio do retorno. Através da lealdade trágica entre Michael e Nick, Cimino entregou não apenas um filme de guerra, mas um retrato doloroso de uma América que, após o Vietnã, nunca mais conseguiria se olhar no espelho com a mesma inocência de antes.

Ficha técnica do filme “O Franco Atirador” (1978):

  • Título original: The Deer Hunter
  • Direção: Michael Cimino
  • Roteiro: Deric Washburn, Michael Cimino
  • Elenco:
  • Robert De Niro (Michael “Mike” Vronsky)
  • John Savage (Steven Pushkov)
  • Christopher Walken (Nikonar “Nick” Nod)
  • John Cazale (Stanley “Stosh” Stoshkov)
  • Meryl Streep (Linda)
  • Música: Stanley Myers
  • Cinematografia: Vilmos Zsigmond
  • Edição: Peter Zinner
  • Duração: 183 minutos
  • Gênero: Guerra, Drama
  • País de origem: Estados Unidos
  • Ganhou cinco Oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante para Christopher Walken, Melhor Edição e Melhor Som.

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