Editora: Zahar
Publicação: 1ª edição – julho de 1990
Idioma: Português
Páginas: 236
Começar o ano de 2026 com uma boa leitura é fundamental, não apenas para o nosso intelecto, mas, sobretudo, para o nosso desenvolvimento artístico. Tenho iniciado o ano com uma lista diversa de livros: obras religiosas, relatos sobre experiências de fé, contos, poesias e, claro, livros de cinema. Temas distintos que se entrelaçam justamente para enriquecer o processo de estudo, pesquisa e criação. A diversidade de leituras amplia o olhar e aprofunda a sensibilidade.
Em A Forma do Filme, Serguei Eisenstein nos conduz para além da superfície das imagens e propõe uma reflexão profunda sobre o cinema como uma linguagem artística autônoma. Para o cineasta soviético, o filme não é apenas uma sucessão de cenas, mas uma construção intelectual e sensorial, na qual cada elemento, enquadramento, ritmo, movimento e som, participa ativamente da produção de sentido. É essa complexidade que torna o cinema tão fascinante.
Em 1929, Eisenstein dedicou-se a estudar atentamente o movimento no cinema e sistematizou características fundamentais da forma e do sentido cinematográficos, elaborando uma teoria que, como ele próprio sugere, ensina o cinema a “voar”. Entre os temas abordados estão a relação entre teatro e cinema, a dramaturgia da forma fílmica, os métodos de montagem e a busca pela pureza da linguagem cinematográfica. A Forma do Filme, ao lado de O Sentido do Filme, tornou-se uma das principais bases teóricas para a reflexão sobre o cinema. Ambos, publicados pela Zahar, são clássicos incontornáveis e deveriam ser livros de cabeceira, pois nos ensinam a pensar o filme para além das imagens.
O conceito central da obra é a montagem como princípio criador. Eisenstein defende que a relação das imagens é capaz de provocar emoção, pensamento e consciência crítica no espectador. A forma, portanto, não é decorativa: ela é ideológica, expressiva e profundamente ligada à intenção artística. Para Eisenstein, o cinema pensa por imagens, e essas imagens dialogam, se confrontam e se transformam umas às outras.
Ao dialogar com a literatura, a música, o teatro e as artes plásticas, Eisenstein amplia o entendimento do cinema como uma arte total, capaz de sintetizar diferentes linguagens. As artes se complementam e dão vida à narrativa. É belíssima a citação presente no livro: “O músico usa uma escala de sons; o pintor, uma escala de tons; o escritor, uma lista de sons e palavras — e estes são todos tirados, em grau semelhante, da Natureza.
E, Goethe completa: “Na natureza, nunca vemos nada isolado, mas tudo em conexão com alguma outra coisa que está diante, ao lado, sob e sobre ela.”
O livro apresenta diferentes formas de montagem e cita filmes fundamentais, que recomendo assistir paralelamente à leitura, permitindo uma análise prática e aprofundada do que Eisenstein apresenta de maneira tão singular e brilhante.
Há também um trecho especialmente necessário para os dias atuais: “Quando tínhamos filmes que ‘atraíam’, não falávamos de entretenimento. Não tínhamos tempo para ficarmos aborrecidos. Mas então esta atração se perdeu em algum lugar. A capacidade de construir filmes que atraíam foi perdida. E começamos a falar de entretenimento.” (p. 89)
Do meu ponto de vista, estudar, revisitar obras, resgatar os clássicos e realizar uma análise profunda da forma do filme é essencial para compreendermos o cinema de hoje. Isso aprimora nosso olhar e eleva nosso entendimento cinematográfico.
A arte do filme não se resume a bons enquadramentos, mas se revela na sua totalidade: na linguagem, na imagem, na sonoridade muitas vezes como elemento narrativo central, na forma e no conteúdo.
Com uma linguagem envolvente e instigante, A Forma do Filme nos convida a refletir sobre todo o processo cinematográfico. Não é apenas um livro técnico, mas um chamado à percepção ativa do espectador e à responsabilidade criativa do artista. Uma leitura essencial para quem deseja compreender o cinema não apenas como entretenimento, mas como forma de pensamento e expressão estética.
Se desejar, a obra está disponível em PDF. Boa leitura.
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Parabéns pelo artigo