Análise do Filme: M.A.S.H (1970)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1970, em meio à efervescência cultural e política da era Vietnã, M.A.S.H, dirigido por Robert Altman, transcendeu a categoria de comédia militar para se tornar um dos pilares do cinema de autor da Nova Hollywood. Embora tecnicamente situado na Guerra da Coreia, o filme é uma crítica mordaz e nada velada ao conflito do Sudeste Asiático, utilizando o humor iconoclasta para desmantelar as noções tradicionais de heroísmo e dever.
Diferente das produções bélicas da época, a narrativa de Altman é deliberadamente episódica e fragmentada. Não há uma grande missão estratégica ou um clímax de batalha; o foco é a unidade móvel hospitalar onde os cirurgiões Hawkeye Pierce e Trapper John operam. A estrutura reflete o próprio caos da guerra: uma sucessão de traumas médicos interrompidos por momentos de ócio, trotes e deboche. Essa falta de linearidade clássica serve para enfatizar a natureza cíclica e absurda do conflito.
No cerne do filme reside a futilidade da guerra. O hospital é uma linha de montagem onde corpos jovens são remendados apenas para serem devolvidos à máquina de destruição. Diante desse horror, o humor emerge como o único mecanismo de defesa viável. Para Hawkeye e Trapper, a piada não é um sinal de desrespeito à vida, mas uma ferramenta de sobrevivência psicológica. A sanidade é mantida através do cinismo; rir do absurdo é a única forma de não sucumbir a ele.
Altman utiliza o hospital como um microcosmo da sociedade. A crítica à autoridade é personificada nos personagens Frank Burns e Margaret Houlihan, que representam a rigidez militar e a moralidade puritana. Ao ridicularizá-los, o filme expõe a hipocrisia das instituições: enquanto o alto escalão se preocupa com regulamentos e protocolos, os médicos “rebeldes” são os únicos que realmente salvam vidas. A competência profissional, portanto, é colocada em oposição direta à disciplina militar.
A relação entre o indivíduo e a sociedade é explorada através da recusa dos protagonistas em se tornarem engrenagens do sistema. Eles preservam sua identidade e individualidade recusando uniformes impecáveis ou saudações militares. A importância da liberdade individual é reafirmada em cada ato de insubordinação. Para os cirurgiões de Altman, a lealdade pertence aos seus pacientes e aos seus colegas, nunca à bandeira ou ao estado.
Tecnicamente, M.A.S.H revolucionou o cinema com o uso de diálogos sobrepostos e zooms constantes, criando uma atmosfera única. Essa estética de improviso e realismo documental permitiu que a crítica à Guerra do Vietnã fosse sentida de forma visceral, mesmo sob o disfarce da Coreia.
A recepção foi excepcional, rendendo a Palma de Ouro em Cannes e consolidando Robert Altman como um mestre da desconstrução de gêneros. O legado de M.A.S.H permanece vivo não apenas pela série de TV que inspirou, mas por sua coragem em afirmar que, em um mundo dominado pela loucura institucionalizada, a rebeldia e o riso são os maiores atos de humanidade possíveis.

Ficha Técnica de M.A.S.H (1970)

  • Título Original: M.A.S.H
  • Direção: Robert Altman
  • Roteiro: Ring Lardner Jr. (baseado no romance “MASH: A Novel About Three Army Doctors” de Richard Hooker)
  • Elenco:
  • Donald Sutherland como Capitão Benjamin Franklin Pierce
  • Elliott Gould como Capitão John Francis Xavier McIntyre
  • Tom Skerritt como Capitão Augustus Bedford “Duke” Forrest
  • Sally Kellerman como Major Margaret Houlihan
  • Robert Duvall como Major Frank Burns
  • Gênero: Comédia, Drama, Guerra
  • Duração: 116 minutos
  • País de Origem: Estados Unidos
  • Idioma: Inglês
  • Lançamento: 25 de janeiro de 1970
  • Produção: Ingo Preminger
  • Cinematografia: Harold E. Stine
  • Música: Johnny Mandel

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