O clássico japonês “Onibaba – A Mulher Demônio”, de 1964, é um filme que desafia classificações. Ele pode ser visto como uma obra de fantasia, de horror ou um drama com elementos eróticos. Ele traz um Japão empobrecido por uma intensa guerra civil, no século XVI. O filme possui apenas quatro personagens fixas e algumas pequenas participações que logo são descartadas pelo roteiro. A história trata basicamente de duas mulheres que esperam pelo retorno do filho de uma delas e marido da outra, ou seja: são sogra e nora vivendo em um barraco. O sustento das duas vêm do assassinato de guerreiros samurais para roubarem os seus pertences e venderem a um comerciante inescrupuloso que vive em uma caverna.
A rotina das duas se altera com a chegada de Hachi, um guerreiro desertor amigo do marido da mulher mais jovem. Ele diz às duas mulheres que sua espera é em vão, pois Kishi, o marido de uma e filho da outra havia morrido em combate.
Hachi passa a assediar a viúva, enquanto a sogra dela se sente enciumada pelo guerreiro preferir sua jovem nora. Logo a jovem cede ao assédio de Hachi e os dois iniciam uma relação de intensa sensualidade. Mas a sogra se sente traída pela nora e por Hachi. Ela não quer ficar sozinha, porque precisa da nora para ajudá-la com os latrocínios que pratica para se sustentar e também porque sente inveja da felicidade do casal.
A sogra conta à jovem sobre uma parábola budista que diz que quem se entrega aos desejos carnais sem freios, e fora do matrimônio, será condenado ao Inferno quando morrer. A nora fica intrigada com a história.
Certa noite, a sogra, sozinha no barraco das duas, encontra um samurai mascarado, que lhe ordena que o leve até a civilização, longe do pântano de juncos onde ela vivia, e onde se passa todo o filme. O samurai e ela saem caminhando, até que ele cai em uma armadilha da idosa e morre. Ela lhe rouba a armadura, as armas e a máscara de demônio que ele usava.
Após isso, ela passa a assustar a nora toda vez que ela tentar dar suas escapadas para encontrar com seu amante. A sogra veste a máscara de demônio e faz com que sua nora acredite que ela é um demônio que veio buscá-la para levá-la para o Inferno. Só que, algo acontece, e a idosa não consegue mais tirar a máscara de demônio de seu rosto. Ela entra em desespero e o final do filme é bastante sombrio para os personagens centrais da trama. O final é sombrio, e ao mesmo tempo, o roteiro deixa o final da trama em aberto para interpretações dos espectadores.
O filme do diretor japonês Kaneto Shindô é um conto moralista sobre quem se entrega à conduta libidinosa sem limites e sobre o preço de quem sente inveja da felicidade alheia. O roteiro e a câmera do diretor julgam os personagens a todo momento. Suas falhas de caráter não passam despercebidas, porque o objetivo é estabelecer uma moral aqui.
As atrizes, Nabuko Otowa (mulher idosa) e Jitsuko Yoshimura (mulher jovem), estão bastante à vontade em cena, principalmente Otowa, que é o centro da narrativa. Já o ator Key Satô (Hachi), também dá um show como um anti-herói covarde e amoral.
O filme tem 103 minutos que passam vagarosamente, porque pesa mais a mão do diretor/roteirista para o drama do que para o terror. A fotografia em P&B ressalta o clima de medo e solidão das personagens. O filme está disponível na plataforma de streaming brasileira Filmicca.
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