Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1969, sob a sombra do AI-5, Matou a Família e Foi ao Cinema consolidou Júlio Bressane como uma das figuras centrais do Cinema Marginal. A obra não apenas desafiou os costumes da época, mas implodiu a gramática cinematográfica tradicional para filmar o “impossível”: o tédio, o vazio e a barbárie de uma classe média estagnada.
O filme não se organiza por uma progressão dramática convencional. Seu eixo central — o jovem que assassina os pais a navalhadas e busca refúgio em uma sala de cinema — é intercalado por “trechos” de violência e desejo que parecem desconectados cronologicamente, mas unidos pelo sentimento de desintegração das normas morais e sociais. Ao trocar o crime pelo filme romântico (Perdidas de Amor), o protagonista estabelece o tom da obra: a indiferença absoluta diante da vida.
Bressane ataca o núcleo da “família tradicional brasileira” ao retratá-la como um espaço de repressão e mediocridade. O crime não é apresentado com motivações psicológicas profundas, o que o torna ainda mais aterrador: ele é o resultado do tédio. A busca por liberdade e identidade dos personagens esbarra sempre na impunidade, resultando em atos de violência que são gritos desesperados por uma existência autêntica em um mundo que faliu moralmente.
A relação entre realidade e ficção é o coração conceitual do filme. Ao colocar o assassino na plateia de um cinema, Bressane critica o caráter alienante da sétima arte comercial. Enquanto o espectador comum busca o cinema para fugir da realidade, o protagonista de Bressane leva a realidade sangrenta para dentro da sala escura. É uma crítica ferrenha ao cinema industrial, que ignora as vísceras do país para vender sonhos pré-fabricados.
Alinhado ao Tropicalismo, o filme utiliza o deboche e a “estética da fome” (rebatizada aqui como “estética do lixo”). Bressane ignora a perfeição técnica em favor da experimentação: planos-sequência estáticos que forçam o olhar do espectador, som ruidoso e uma montagem descontínua. A obra utiliza a crônica policial sensacionalista e a transforma em alta arte marginal, celebrando o subdesenvolvimento como ferramenta de resistência cultural contra a hegemonia estrangeira.
Matou a Família e Foi ao Cinema permanece como um exercício de radicalismo. Ao filmar o Brasil com “uma câmera na mão e um revólver na cabeça”, Júlio Bressane não buscou apenas chocar, mas espelhar uma sociedade que, sob a repressão política, perdia a sua humanidade no cotidiano das salas de estar e de cinema.
Ficha Técnica de Matou a Família e Foi ao Cinema (1969)
- Título Original: Matou a Família e Foi ao Cinema
- Direção: Júlio Bressane
- Roteiro: Júlio Bressane
- Elenco:
- Antero de Oliveira como Júlio
- Renata Sorrah como a Mãe
- Vick Militello como a Irmã
- Paulo Villaça
- Guilherme Corrêa
- Maria Regina
- Rodrigo Santiago
- Gênero: Drama, Comédia
- Duração: 80 minutos
- País de Origem: Brasil
- Idioma: Português
- Orçamento: não disponível
- Estreia: 1969 (Brasil)
- Distribuidora: Difilm
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Parabéns pelo Artigo.