Análise do Filme: Cara a Cara (1967)

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Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1967, Cara a Cara marca a estreia de Júlio Bressane em longas-metragens aos 21 anos, consolidando-se como uma obra seminal para o que viria a ser o Cinema Marginal brasileiro. O filme rompe com o realismo didático do Cinema Novo, propondo uma imersão na subjetividade e na crise de identidade em meio a uma sociedade em decomposição moral.
A trama centra-se em Raul (Antero de Oliveira), um funcionário público de classe média que vive uma rotina asfixiante com sua mãe idosa no subúrbio. Sua existência é atravessada por uma fixação obsessiva por Luciana (Helena Ignez), filha de um influente político. O desenvolvimento não segue uma progressão linear tradicional, mas sim uma série de fragmentos que retratam a degradação mental do protagonista. O clímax é um surto de violência nihilista: Raul assassina seu patrão, sua mãe e Luciana, culminando em uma ruptura total com as estruturas sociais que o cercavam.
O título “Cara a Cara” evoca o embate direto entre o “Eu” e o “Outro”, mas revela a impossibilidade desse encontro ser autêntico. Raul tenta forjar uma identidade através da imitação dos modos da elite da Zona Sul, mas sua tentativa de “usar a máscara” do sucesso apenas evidencia sua alienação. Luciana, por sua vez, personifica a alteridade inalcançável e fútil, representando uma classe que se protege atrás de privilégios e indiferença.
Bressane utiliza o filme para denunciar a corrupção estrutural e a hipocrisia burguesa. A estética, premiada pela fotografia de Affonso Beato, afasta-se da busca pela “beleza” clássica para explorar o desconforto.
O uso de planos estáticos e o som dessincronizado criam um distanciamento crítico, forçando o espectador a confrontar a abjeção na tela.
O filme é um manifesto do cinema experimental, onde o processo criativo é mais importante que o produto final.
Sob a ótica psicanalítica, o filme explora a repressão e o desejo patológico. A violência de Raul não é meramente política; é uma explosão de pulsões reprimidas em um ambiente doméstico e profissional castrador. O ambiente urbano é tratado como uma projeção da mente claustrofóbica do personagem, onde cada encontro social acentua o abismo entre o desejo e a realidade.

Ficha Técnica de Cara a Cara (1967)

  • Título Original: Cara a Cara
  • Direção: Júlio Bressane
  • Roteiro: Júlio Bressane
  • Elenco:
  • Antero de Oliveira – Raul
  • Ignez, Helena – Luciana
  • Gracindo, Paulo – Hugo Castro
  • Paulo Padilha – Nestor Padilha
  • Maria Lúcia Dahl – Amiga
  • Rosita Tomás Lopes – Mãe de Luciana
  • Vanda Lacerda – Mãe de Raul
  • Benedito Corsi – Burocrata
  • Italo Rossi – Político
  • Napoleão Muniz – Político
  • Gênero: Drama
  • Duração: 80 minutos
  • País de Origem: Brasil
  • Idioma: Português
  • Estreia: 1967 (Brasil)

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