Entenda o perturbador retrato da família brasileira por Caio Sóh. No elenco: Adriana Esteves, Marco Ricca, Milhem Cortaz, Bianca Bin, David Júnior e Pedro Nercessian.
O filme Canastra Suja, de 2016 e lançado comercialmente no Brasil em 2018, é o quarto longa-
metragem dirigido e escrito por Caio Sóh. Nota-se uma evolução significativa na narrativa, no elenco
e na direção. A câmera continua na mão, como em Teus Olhos Meus (2011), mas, em vez de transmitir a
falta de pertencimento dos personagens, desta vez, evidencia os sentimentos caóticos que
transbordam da família apresentada.
A história gira em torno de uma família carioca: o pai, a mãe, o filho mais velho, a filha do meio e
a caçula. À primeira vista, aparentam ser uma família normal e unida, mas o pai, Batista, tenta tratar
seu alcoolismo; a mãe, Maria, busca manter todos unidos, porém utiliza anabolizantes e mantém um
caso com o namorado da filha mais velha; a caçula, Rita, tem transtorno do espectro autista e não se
comunica; o filho, Pedro, questiona a autoridade do pai, entrando constantemente em conflito com
ele; e a filha do meio, Emília, tenta manter a paz, embora também mantenha um caso com o dentista
para quem trabalha. É tudo muito “Nelson Rodriguiano”: uma felicidade de fachada que esconde
uma família profundamente problemática, na qual todos deveriam fazer terapia.
A fotografia e a direção de arte do filme são quase inteiramente cinzentas; há pouquíssimas
cores, tudo é triste ou neutro. Isso porque os problemas estão tão emaranhados e rotineiros que é
como se os personagens não estivessem vivendo, apenas funcionando no modo automático,
tentando não piorar tudo. Os atores estão muito bem em seus respectivos papéis. Maria, interpretada
por Adriana Esteves, quando se irrita e grita, inevitavelmente remete à personagem Carminha de
Avenida Brasil; contudo, quando está quieta e calma, torna-se perceptível que algo não está certo e
que falta pouco para ela “explodir”.
Além da personagem de Adriana Esteves, o filho também demonstra sinais de uma explosão
iminente: não quer estudar e tampouco se agrada do emprego que o pai lhe arranja. Após outra
briga com Batista, desesperado, pergunta a Tatu, namorado de Emília, qual é o trabalho que lhe
rende tanto dinheiro e se poderia conseguir o mesmo para ele. Entretanto, o serviço está longe de
ser tão simples quanto imaginara.
Canastra Suja é um longa-metragem cheio de surpresas e de um realismo impressionante,
chegando, em certos momentos, também por causa da câmera na mão, a lembrar um documentário.
A história consegue prender o espectador no drama da família que, em vez de ser cafona e
previsível, funciona como uma bomba-relógio imprevisível. Ademais, desperta o interesse do
público pelo restante da filmografia de Caio Sóh, que merece mais reconhecimento.
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Não conhecia. A análise me fez ter vontade de assistir.