Análise – Godzilla Vs. Biollante (1989)

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“Os longos trinos
Dos violinos
Do outono
Ferem minh’alma
Com uma calma
Que dá sono.

Ao ressoar
A hora, alvar,
Sufocado,
Choro os errantes
Dias distantes
Do passado.

E em remoinho,
O ar daninho
Me transporta
De cá pra lá,
De lá pra cá,
Folha morta”

(“Canção de Outono”, tradução de Paulo Mendes Campos)

No outono de 1985, um dentista chamado Shinichiro Kobayashi pensava nesses versos melancólicos do poeta francês Paul Verlaine quando foi participar de um concurso proposto pela produtora Toho. O objetivo do concurso era encontrar a história de seu próximo filme, uma continuação de O Retorno de Godzilla, de 1984, que foi o primeiro título daquela que ficou conhecida como a Era Heisei da franquia Godzilla. Um soft reboot, que desconsiderava quase todos os filmes feitos na Era Shōwa, entre 1955 e 1975, com exceção do filme original do lagarto radioativo feito em 1954. Entre milhares de aplicantes, a história de Kobayashi foi escolhida. Na trama, Godzilla enfrentaria uma criatura nova, e não um dos antigos adversários resgatados de filmes anteriores, como Rodan ou King Ghidorah. Então Kobayashi resgatou uma ideia antiga de um episódio de Ultraman para criar esse novo inimigo que ele nomeou de Biollante, inspirado pelo poema de Verlaine, especificamente pela pronúncia francesa da palavra “violinos” (violons) no segundo verso. Depois disso, a Toho chamou o diretor Kazuki Ōmori para finalizar o roteiro de Godzilla Vs. Biollante, que estreou em 1989 e cuja trama apresentaria uma sociedade japonesa num momento de tensa expectativa após os eventos do filme anterior.

No final de O Retorno de Godzilla, o titular kaiju ficou preso dentro de um vulcão ativo após causar a costumeira destruição em Tóquio. Enquanto a cidade era reconstruída, o material genético que Godzilla deixou nos destroços se torna alvo de disputa. Uma corporação científica americana chamada Bio-Major e o governo do país fictício de Saradia tentam se apoderar das células radiativas de Godzilla. Em meio a esse conflito, a Bio-Major realiza um atentado a bomba no laboratório do cientista Genshiro Shiragami (Kōji Takahashi), que estava trabalhando para a Saradia, matando sua filha Erika (Yasuko Sawaguchi). Cinco anos depois, o Doutor Shiragami vive recluso em seu laboratório particular no Japão, onde produziu uma nova variedade de rosa combinada com o DNA de Erika, como forma de preservar a alma de sua filha. Ele concorda em colaborar com um novo projeto do Departamento de Defesa do Japão, no qual o cientista Kazuhito Kirishima (Kunihiko Mitamura) e o tenente Goro Gondo (Toru Minegishi) esperam usar as células preservadas de Godzilla para criar uma Bactéria Anti-Energia Nuclear, que um dia poderá ser usada como arma contra o próprio Godzilla, caso ele escape do vulcão.

Secretamente, entretanto, Shiragami combina as células de Godzilla com as de sua rosa, tentando dar continuidade ao trabalho que fazia com Erika no laboratório da Saradia. O resultado que ele não esperava é a criação de Biollante, uma planta gigantesca que escapa de seu laboratório e cria raízes no meio do Lago Ashinoko. Enquanto isso, os conflitos entre os agentes da Bio-Major e o serviço secreto da Saradia culmina em outro ataque terrorista, que acaba libertando Godzilla de sua prisão. Essa nova ameaça de Godzilla já era prevista pela namorada de Kirishima, Asuka Okouchi (Yoshiko Tanaka), que junto de sua colega telepata Miki Saegusa (Megumi Odaka) tentam se comunicar mentalmente tanto com Godzilla quanto com Biollante.

Então… é muita trama pra contrabalancear relativamente pouco tempo de batalha de kaijus. Mas, incrivelmente, funciona. Geralmente se acredita que a contratação de um diretor que seja fã de longa data de uma franquia específica seja um dos segredos para realizar um novo capítulo bem sucedido. Mas às vezes o contrário também é verdade. Um diretor hater, ou no mínimo indiferente ao que já foi feito, pode trazer ideias novas e imbuir seu estilo particular a um personagem clássico. Pensem no Tim Burton com o Batman. E Kazuki Ōmori deixou claro em entrevistas que não era nenhum entusiasta de Godzilla. Ele era fã de filmes do James Bond, e é exatamente por isso que há tantos elementos de espionagem na trama. Obviamente ele também é fã de Exterminador do Futuro, que foi uma das principais influências em Godzilla Vs. King Ghidorah, o filme seguinte que ele também dirigiu e que foi lançado em 1991. Da mesma forma, é obviamente um filme muito pensado para o mercado internacional, escalando vários atores de fora do Japão falando inglês. O que provoca algumas cenas constrangedoras quando se percebe que qualquer ator que não esteja falando japonês nesse filme está atuando mal pra caramba. Sério, o nível de canastrice em algumas cenas é maior do que o de radiação saindo do corpo do Goji (eu chamo ele de Goji, somos chegados).

Mas mesmo com essa abordagem americanizada – inclusive com um certo orientalismo na forma que os povos árabes são retratados – a salada de referências e elementos narrativos ocidentais que Ōmori preparou aqui não é nada mal. Muito pelo contrário, consegue trazer nova força para a franquia ao mesmo tempo que não obscurece os temas clássicos de Godzilla, ainda presentes e modernizados. Os horrores das bombas atômicas e da corrida nuclear que inspiraram o filme original de Ishirō Honda aqui dão lugar para uma nova escalada de poder, entre grandes empresas inescrupulosas, governos em ascensão num novo cenário mundial e cientistas tendo que lidar com os frutos caóticos de seu trabalho além das fantasias de suas boas intenções. Temas diferentes, mas com o mesmo efeito desolador. Em seus melhores momentos, os filmes do Godzilla sempre oferecem metáforas e discussões reveladoras sobre a relação do homem com a natureza. Ou melhor, da tolice humana ao tentar controlar o caos frente a um ecossistema sublime e destrutivo.

O próprio Godzilla sempre encarnou essa relação em todos os seus filmes, mas Biollante consegue ser uma representante mais eficaz da fúria da Mãe Natureza. Primeiramente, é uma rara kaiju feminina, membro de um clubinho bem diminuto entre os monstros da Toho (acho que é apenas ela e a Mothra). E o fato de ser uma planta surge como simbolismo bem óbvio. Talvez seja um pouco além das intenções originais de Kobayashi ao lembrar-se do poema de Verlaine, mas é interessante notar que Biollante é consequência do luto do Doutor Shiragami, um cientista especializado em plantas. “Os longos trinos dos violinos do outono ferem minha alma e o ar daninho me transporta como folha morta”, com certeza. A tristeza do ser humano é acompanhada pelo definhar da folhagem. Mas além disso, nas duas formas em que ela aparece no filme, Biollante performa a dualidade da natureza e do meio ambiente. É pacífica e contemplativa quando surge enraizada no Lago Ashinoko, uma rosa gigantesca emitindo um gemido parecido com a canção de uma baleia. E ao passar por uma última transformação após seu primeiro embate com Godzilla, ressurge ameaçadora e reativa, um titã aterrorizante e raivoso que mais parece o filhote de um crocodilo com uma montanha.

O que me leva ao motivo de estar escrevendo esse texto. A cena em que Biollante aparece em sua forma final é um momento que ficou cravado na minha memória. Não apenas pelo trabalho incrível do designer Shinji Nishikawa ao criar o monstro, que também deu uma nova aparência para Godzilla que inspirou praticamente todos os designs que o personagem teve posteriormente. Após ser aparentemente derrotada por Godzilla, Biollante retorna com um emaranhado de tentáculos brotando do chão rodeando suas enormes mandíbulas que lançam uma seiva tóxica. E mais do que isso, ela não está mais fixa ao solo, avançando na direção de Godzilla com o balançar de suas raízes como se fosse um tsunami de terra. Esse momento específico não dura nem quinze segundos, mas é magnífico. Foram necessárias vinte pessoas no set para manipular todos os mecanismos que movimentavam o fantoche de Biollante através do cenário em miniatura, e o resultado é impressionante. Talvez um dos melhores exemplos da junção de criatividade e técnica que criaram o legado da Toho.

Porém, revendo o filme anos depois, foi outra cena que chamou minha atenção, a ponto de se tornar um dos meus momentos favoritos em toda a franquia Godzilla. Ainda no começo do filme, antes do nascimento de Biollante e do Goji ressurgir, Miki e Asuka estão trabalhando com crianças sensitivas num departamento de estudos de telepatia. Na cena em questão, as crianças estão todas juntas desenhando um sonho que todas elas tiveram na noite anterior. Quando Miki e Asuka pedem para que elas mostrem o que sonharam, as crianças levantam os desenhos que fizeram, revelando várias ilustrações do Godzilla em traço infantil, ao mesmo tempo que o tema clássico do kaiju começa a tocar a todo volume. Num filme de monstros gigantes e batalhas emocionantes, essa é a cena que mais me dá arrepios. Tão diferentes entre si, essas duas cenas demonstram muito bem aquilo que um bom filme de Godzilla pode oferecer. Ou das possibilidades que o próprio cinema oferece. Não só o frenesi de se ver monstros gigantes através da ilusão de atores usando roupas de borracha, mas a expectativa de quando finalmente poderemos vê-los.

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