Hoje, dia 19 de Abril é comemorado o dia dos povos indígenas e eu não poderia deixar comentar sobre a importância da cultura e da história dessas comunidades que estão com a gente desde que o mundo existe. Esta data é um marco fundamental para celebrar a diversidade cultural, reconhecer o papel dos povos originários na formação da identidade brasileira e reforçar a luta pela manutenção de seus direitos, como a demarcação de terras e o combate ao preconceito.
Antigamente chamada de “Dia do Índio”, a celebração teve seu nome oficialmente alterado para Dia dos Povos Indígenas em 2022, através da Lei número 14.402. O uso de “Povos Indígenas” reconhece a existência de centenas de etnias distintas, cada uma com sua própria língua, tradição e organização social. Já que o termo “índio” é considerado genérico e muitas vezes estigmatizante.
Eu irei comentar sobre 10 filmes para celebrar essa data tão importante: O dia dos povos indígenas. Fiz uma seleção de filmes mais antigos e mais novos para os amantes do cinema e de várias nacionalidades.
01) Tainá, Uma Aventura na Amazônia. (2000) Essa é uma das franquias mais icônicas do cinema infanto-juvenil brasileiro e é focada na preservação ambiental e na cultura indígena. Tainá (Eunice Baía), uma menina indígena órfã de 8 anos que vive com seu avô, Tigê. Ela se torna uma guardiã da floresta, protegendo os animais de traficantes, e faz amizade com Joninho, um menino da cidade grande.
Há mais dois filmes que falam sobre a Taina. Irei citá-los aqui: Taina 2 – A Aventura Continua (2004) e Tainá – A origem (2011). Em 2018, a franquia ganhou a série animada Tainá e os Guardiões da Amazônia. Vale a pena dar uma conferida nos três filmes e também a série animada.
02) O Abraço da Serpente (2015) – É um filme colombiano e que foi indicado ao Oscar em 2016. Dirigido por Ciro Guerra, foi o primeiro filme colombiano indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
A trama narra a relação de um xamã amazônico ( Karamakate) que acredita ser o último sobrevivente do seu povo com dois cientistas em busca de uma planta sagrada, chamada Yakiruna e explorando o impacto do colonialismo. É considerado uma das obras mais viscerais e visivelmente impactantes do cinema latino-americano recentemente.
03) Dança com Lobos (1990). Em meados da década de 1860, durante a Guerra Civil Americana, o tenente John Dunbar (Kevin Costner) é enviado para um posto militar isolado na fronteira das grandes planícies. Chegando lá, ele vive em um estado completo de solidão, mas as coisas mudam quando faz contato com uma tribo vizinha de índios da Lakota Sioux.
O filme é um divisor de águas por humanizar os povos originários em uma época em que o cinema os retratava apenas como vilões ou figuras secundárias. Particularmente não gostava de como o povo indígena era tratado por algumas séries ou filmes mais antigos. Como se eles fossem “inimigos” da Terra já que são o contrário. O filme foi vencedor de 07 Oscars.
Foi inovador ao usar atores de ascendência indígena (como Graham Greene e Wes Studi) e incluir longos diálogos na língua original Lakota, o que era raro em Hollywood na época. O filme mostra os Sioux (Lakota) como pessoas complexas, com famílias, senso de humor e uma cultura rica, desafiando o estereótipo do “selvagem”.
04) A Febre (2019). Foi dirigido por Maya Da-Rin, e é uma das obras mais aclamadas do cinema brasileiro atual. E se destaca por fugir dos estereótipos do povo indígena. A trama foca em Justino, um indígena do povo Desana que vive em Manaus e trabalha como vigilante no porto de cargas. Ele leva uma vida comum até que sua filha, Vanessa, passa em um concurso para estudar medicina em Brasília. Com a partida iminente da filha, Justino começa a sofrer de uma febre misteriosa e sem causa médica aparente, ao mesmo tempo em que surgem relatos de uma criatura estranha rondando a vizinhança.
Essa febre pode ser vista como uma metáfora, para a angústia de estar longe da terra natal e o sentimento de não pertencer totalmente a nenhum dos dois mundos (o urbano e o tradicional).
05) Chuva é cantoria na aldeia dos mortos (2019). Dirigido pela brasileira Renée Nader Messora e pelo português João Salaviza, o filme foi premiado no Festival de Cannes (Prêmio Especial do Júri na mostra Un Certain Regard).
Filmado com o povo Krahô, a trama acompanha Ihjãc, um jovem do povo Krahô (no Tocantins) em um dilema entre seguir as tradições de sua aldeia ou buscar tratamento na cidade após ser visitado pelo espírito do pai. Assustado com as responsabilidades e as visões que acompanham o dom do xamanismo, Ihjãc adoece e decide fugir para a cidade (Araguaína), buscando tratamento no hospital dos brancos. O filme mostra o contraste doloroso entre o ritmo da aldeia e a frieza da vida urbana, onde ele se sente um estranho e enfrenta a burocracia e o preconceito.
06) A Última Floresta (2021) O filme foi dirigido por Luiz Bolognesi, mas o roteiro foi escrito em parceria com Davi Kopenawa, xamã e líder político Yanomami. É um filme que mistura documentário com passagens encenadas para retratar a cosmologia e a luta pela sobrevivência do povo Yanomami.
O longa destaca o papel das mulheres, especialmente através de Ehuana Yaira, que traz uma perspectiva feminina sobre a resistência e o cuidado com a comunidade.
A trama acompanha o cotidiano da aldeia Watoriki. Enquanto Kopenawa tenta manter vivos os rituais e a conexão com os espíritos da floresta, a comunidade enfrenta a ameaça crescente do garimpo ilegal, que traz doenças, violência e contaminação por mercúrio. O filme foi aclamado internacionalmente e venceu o prêmio do público na mostra Panorama do Festival de Berlim em 2021.
07) Assassino da Lua das Flores (2023). Dirigido por Martin Scorsese, é um drama épico de crime que narra um dos episódios mais sombrios da história dos Estados Unidos que foi a conspiração para matar membros da nação indígena Osage em Oklahoma na década de 1920.
O filme foca no relacionamento entre Ernest Burkhart (Leonardo DiCaprio) e Mollie Kyle (Lily Gladstone), uma indígena herdeira de direitos minerais. Ernest é manipulado por seu tio, o barão do gado William “King” Hale (Robert De Niro), para cometer crimes e garantir que a fortuna do petróleo passe para sua família por meio de heranças.
08) Os Colonos (2023), dirigido por Felipe Gálvez Haberle, é um “faroeste revisionista” chileno que denuncia o genocídio do povo Selk’nam na Terra do Fogo, no extremo sul da Patagônia, durante a virada do século 20. O filme é baseado em fatos reais e aborda o massacre dos Selk’nam (também conhecidos como Onas), um capítulo da história chilena e argentina muitas vezes omitido dos currículos escolares (o que é uma pena, infelizmente).
O longa Venceu o prestigiado prêmio FIPRESCI (Crítica Internacional) na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2023. E é comparado a Assassinos da Lua das Flores por ambos utilizarem o gênero western para revisar crimes históricos contra povos originários.
09) Sinais de Fumaça (1998). É o primeiro longa-metragem escrito, dirigido e estrelado inteiramente por indígenas a alcançar uma distribuição comercial de massa. É baseado no livro de contos de Sherman Alexie (que também assina o roteiro).
O filme é uma comédia dramática de estrada. A história acompanha dois jovens Coeur d’Alene, Victor Joseph e Thomas Builds-the-Fire, que saem de uma reserva em Idaho e viajam até o Arizona para buscar as cinzas do pai de Victor. O filme utiliza o humor ácido para lidar com questões pesadas, como o alcoolismo nas reservas, o abandono paterno e a forma como a cultura pop branca (como o filme Danças com Lobos) influencia a percepção que os próprios indígenas têm de si mesmos.
O filme foi o grande vencedor do Festival de Sundance em 1998, levando o Prêmio do Público e o de Melhor Cineasta para Chris Eyre.
10) Atanarjuat: The Fast Runner (2001). É dirigido por Zacharias Kunuk, é considerado um dos filmes mais importantes da história do cinema indígena e canadense. Ele reconta uma lenda Inuit milenar, transmitida oralmente por gerações, sobre amor, ciúme e vingança no Ártico.
Ambientado há cerca de mil anos, o filme narra a história de dois irmãos — o forte Amaqjuaq e o veloz Atanarjuat — que são alvos da inveja de Oki, filho do líder da tribo. Oki planeja matar Atanarjuat para ficar com sua amada, Atuat. Em uma das cenas mais icônicas do cinema, Atanarjuat sobrevive a um ataque e é forçado a fugir completamente nu pelas geleiras do Ártico, confiando apenas em sua resistência física.
Foi o primeiro longa-metragem da história escrito, dirigido e atuado inteiramente na língua Inuktitut. O filme foi produzido por uma produtora Inuit (Isuma), garantindo que figurinos, ferramentas e costumes fossem recriados com precisão histórica absoluta baseada no conhecimento dos anciãos.
O filme ganhou a prestigiada Caméra d’Or (Câmera de Ouro) no Festival de Cannes de 2001, prêmio dado ao melhor primeiro filme de um diretor.
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