Se o primeiro álbum dos Rolling Stones ajudou a banda a sair dos clubes de Londres para o topo das paradas britânicas, foi a partir do segundo disco até o fim dos anos 60 que a coisa ficou realmente séria. Nesse período, os Stones deixaram de ser “apenas mais um grupo da invasão britânica” para se transformar numa das bandas mais influentes da história do rock. A discografia dos Rolling Stones nos anos 60 mostra uma transformação impressionante: de covers de blues a composições próprias, de flertes com a psicodelia ao retorno mais cru às raízes, culminando em dois álbuns fundamentais: “Beggars Banquet” e “Let It Bleed”.
Como a discografia dos Rolling Stones engrena a partir do segundo álbum
Depois do primeiro LP (“The Rolling Stones”, de 1964), a banda emenda uma sequência intensa de lançamentos. Ainda em 1964, vem “The Rolling Stones No. 2” (no Reino Unido; em outros mercados, os títulos variam bastante, com “12 X 5”, “The Rolling Stones, Now!”, etc.). Essa fase pode parecer confusa por causa das diferenças entre as versões britânicas e americanas, mas a essência é clara: a banda ainda está muito centrada em blues e R&B, misturando covers com composições próprias aos poucos.
Discos como “Out of Our Heads” (1965) e “Aftermath” (1966) são importantes porque marcam a transição da banda de intérprete para banda de compositores. Em “Aftermath”, por exemplo, temos o primeiro álbum dos Stones com todas as faixas assinadas por Jagger/Richards – um marco na discografia dos Rolling Stones. É aqui que entram músicas como “Paint It, Black” (em determinadas edições), que mostram um lado mais sombrio, com sitar e uma vibe quase hipnótica.
Enquanto isso, a banda começa a conquistar de vez o mercado americano, surfando a onda da invasão britânica. Beatles, Stones, The Who, Kinks, Animals, todos contribuem para inundar os EUA com sotaque britânico e guitarras distorcidas. Mas os Rolling Stones entram com um diferencial: muita banda inglesa parecia “arrumadinha”. Os Stones soavam mais perigosos, mais sexuais, mais “sujos”. Isso cai como uma luva num país que vivia tensões sociais, guerra do Vietnã e uma juventude inquieta.
O cenário da invasão britânica e a posição dos Stones nos EUA
A invasão britânica nos Estados Unidos, a partir de 1964, muda o jogo no mercado fonográfico. De repente, bandas inglesas começam a dominar as paradas americanas. Os Beatles abrem a porteira, mas os Rolling Stones entram com uma proposta diferente: onde os Beatles eram vistos como simpáticos e versáteis, os Stones assumem a postura de “maior banda de rock’n’roll do mundo” em construção.
Nos EUA, singles como “(I Can’t Get No) Satisfaction” (1965) consolidam essa imagem. O riff de Keith Richards, supostamente criado a partir de uma ideia que ele gravou meio dormindo num gravador portátil, vira hino de frustração e desejo de uma geração. A partir desse momento, a discografia dos Rolling Stones passa a ser acompanhada com muito mais atenção pelos americanos. Eles não são só “mais uma banda da Inglaterra”: são a trilha sonora de uma sensação de não-conformismo.
Os Stones chegam a ser proibidos em algumas rádios, criticados pela imprensa conservadora e vigiados por autoridades, o que, em vez de atrapalhar, reforça a aura de banda rebelde e transgressora. Em termos de imagem, isso só alimenta o mito.

“Their Satanic Majesties Request”: o flerte psicodélico na discografia dos Rolling Stones
Em 1967, a discografia dos Rolling Stones dá uma guinada curiosa com “Their Satanic Majesties Request”. Esse é o álbum em que a banda mergulha de cabeça na psicodelia, claramente influenciada pelo clima de época e, sim, pelo sucesso gigantesco de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles.
A capa já entrega a proposta: visual colorido, meio caótico, com os Stones em roupas extravagantes, tentando dialogar com o universo psicodélico. Musicalmente, o disco traz faixas como “She’s a Rainbow” e “2000 Light Years from Home”, com arranjos mais viajantes, experimentações de estúdio, efeitos sonoros e climas que fogem do rock direto e blueseiro.
“Their Satanic Majesties Request” é um disco meio controverso na discografia dos Rolling Stones. Tem gente que ama pela ousadia, tem gente que acha que a banda tentou ser algo que não era. O próprio grupo, em especial Keith Richards (que detesta o álbum), anos depois, passou a tratar o álbum quase como um desvio de rota. Eu particularmente adoro o disco.
Mas indiscutivelmente “Their Satanic Majesties Request” é importante pois mostra que os Stones não estavam isolados do clima lisérgico da época, e sim reagindo ao que acontecia em volta.
Serve também como um “último passeio” mais profundo pela psicodelia antes da banda voltar com força total às raízes do blues e do rock.

“Beggars Banquet”: o retorno às raízes e o começo da fase clássica
Em 1968, chega “Beggars Banquet”, que muita gente (eu inclusive) considera o início da fase clássica da discografia dos Rolling Stones. Sai a psicodelia e entram de volta o blues, o country, o rock cru, com letras mais afiadas e uma sonoridade mais orgânica.
Logo na abertura, “Sympathy for the Devil” deixa claro que algo mudou. A música começa com percussão, palmas, um clima de ritual, entra o piano e a voz de Mick Jagger assumindo a persona do diabo, narrando momentos sombrios da história humana. É provocação calculada, típico Stones: brincar com o imaginário religioso, desafiar conservadores e, ao mesmo tempo, entregar uma música incrível.
Outros destaques de “Beggars Banquet”:
- “Street Fighting Man” – com clima de protesto, ecoando o espírito de revolta e manifestações que aconteciam no mundo no final dos anos 60.
- “No Expectations” – melancólica, com slide guitar de Brian Jones (última grande contribuição do brilhante multi-instrumentista antes de sucumbir definitivamenteas drogas), que já começava a se afastar emocionalmente da banda, mas ainda deixava marcas profundas com sua sensibilidade musical.
Nesse período, os problemas internos de Brian Jones (drogas, conflitos, falta de foco) ficam mais evidentes. Apesar disso, em “Beggars Banquet” ele ainda contribui com instrumentos de sopro, guitarras e climas únicos. Dá pra sentir uma certa “despedida” artística ali.
“Beggars Banquet” é um ponto de virada porque consolida aquilo que muita gente considera a verdadeira identidade dos Stones: uma banda de rock profundamente enraizada no blues, misturando crítica social, ironia e um certo clima de decadência elegante.

“Let It Bleed”: o ápice sombrio da discografia dos Rolling Stones nos anos 60
Em 1969, a discografia dos Rolling Stones ganha outro capítulo definitivo com “Let It Bleed”. Se “Beggars Banquet” é o retorno às raízes, “Let It Bleed” é o aprofundamento desse caminho, com um tom mais sombrio e pesado, refletindo o fim de uma década que começou colorida e terminou cheia de fissuras.
Logo de cara, o álbum já acerta em cheio com “Gimme Shelter”, que muitos consideram uma das melhores músicas da banda. A introdução com guitarra tensa, a voz de Jagger, o clima de ameaça no ar e, claro, o vocal arrebatador de Merry Clayton (que gravou a parte dela grávida, no meio da madrugada) criam uma sensação de fim do mundo iminente. Em plena época de guerra do Vietnã e caos social, “Gimme Shelter” virou trilha sonora perfeita para a paranoia do fim dos anos 60.
Outras faixas marcantes:
- “You Can’t Always Get What You Want” – com coro de igreja na abertura, crescendo épico e uma letra que mistura resignação e sabedoria meio amarga. É quase um hino geracional.
- “Midnight Rambler” – longa, com clima de jam, explorando a dinâmica da banda ao vivo.
“Let It Bleed” é lançado no mesmo ano em que Brian Jones morre, em julho de 1969, afogado em sua piscina. Ele já não estava mais participando ativamente das gravações (foi substituído por Mick Taylor em boa parte das guitarras), mas sua sombra paira sobre o disco. A banda entra definitivamente em uma nova fase, mais adulta, mais dura, mais ciente do peso da fama, das drogas e do próprio tempo.
Se a gente olhar a discografia dos Rolling Stones até “Let It Bleed”, dá pra dizer que esse álbum fecha a década com uma espécie de ponto de exclamação: é o fim dos anos 60, mas o começo do mito definitivo dos Stones.
Fatos curiosos dessa fase da discografia dos Rolling Stones
- Os Stones quase foram engolidos pela própria imagem
A ideia de “banda perigosa” era ótima para marketing, mas trouxe problemas reais: prisões por drogas, perseguição da imprensa e tensão constante com autoridades. - “Banquetes” e capas polêmicas
A capa original de “Beggars Banquet” era uma parede de banheiro pichada, que gerou briga com a gravadora. Acabou saindo com uma capa branca mais “limpa” inicialmente. Anos depois, a capa imunda virou a imagem oficial que os fãs conhecem. - A virada do blues pro rock autoral
Em poucos anos, os Stones passaram de banda de covers a criadores de alguns dos riffs mais famosos do rock. A dupla Jagger/Richards aprendeu muito rápido o valor de assinar a própria obra. - Invasão britânica, mas com alma americana
Ironia interessante: uma das bandas mais emblemáticas da invasão britânica nos EUA era, ao mesmo tempo, uma das mais apaixonadas pela música americana (blues, R&B, country). Os Stones levaram o blues de volta para o público jovem dos EUA embrulhado em rock britânico.
O que essa fase da discografia dos Rolling Stones deixa de legado
Quando a gente olha para a discografia dos Rolling Stones do segundo álbum até o fim dos anos 60, fica claro que não é só uma sequência de discos: é uma história de transformação. Eles saem de uma banda que reverencia o blues americano para um grupo que cria clássicos próprios, experimenta a psicodelia em “Their Satanic Majesties Request”, volta com força às raízes em “Beggars Banquet” e atinge um ponto alto e sombrio em “Let It Bleed”.
De covers de bar a hinos como “Sympathy for the Devil”, “Street Fighting Man”, “Gimme Shelter” e “You Can’t Always Get What You Want”, essa fase da discografia dos Rolling Stones mostra como a banda soube ler o espírito do tempo, aproveitar a onda da invasão britânica nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, construir uma identidade própria tão forte que atravessou décadas.
Talvez seja por isso que, mesmo hoje, quando alguém pergunta qual é a “fase de ouro” dos Stones, muita gente volta exatamente para esses anos: a metade e o final dos anos 60 e os anos 70, quando a banda parecia estar sempre no auge criativo, emocional e sonoro.
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Perfeita a análise meu amigo.
Uma aula sobre os Discos do Rolling Stones.