Análise do filme: Viver (1952)

Critica de Filmes

Viver, ou Ikuru em japonês, é surpreendente e corajoso, como todos os filmes do mestre japonês Akira Kurosawa (1910 – 1988). Mas é um drama bastante diferente na filmografia do autor, inspirado no livro A Morte de Ivan Illitch, do escritor russo Liev Tolstoi. Viver é diferente porque sua liguagem cinematográfica e seus temas remetem à obra de outro mestre: Yasujiro Ozu (1903 -1963).

Kurosawa é conhecido por filmes épicos e movimentados, com estilo dinâmico, mas Viver é um trabalho mais observador e reflexivo. Com sensibilidade, ele aborda temas como o sentido da vida e a deterioração da sociedade e da família japonesas no pós-Guerra. E é justamente nesses pontos que ele se aproxima de filmes de Ozu como Pai e Filha (1949) e Era Uma Vez em Tóquio (1953), entre outros.

Este Kurosawa mais próximo da sensibilidade cinematográfica de Ozu mostra a casa vazia e o escritório impessoal do protagonista Kanji Watanabe (Takashi Shimura). No entanto, não deixa de ser um Kurosawa ao preferir flash-backs e voz em off, travellings e movimentos de câmera que mostram a agitação da cidade. Ozu, por sua vez, tinha como principal característica a câmera parada, contemplativa e estática “no nível do tatame”.

A história segue os últimos meses de vida do funcionário público Watanabe após a descoberta de um câncer letal no estômago. Watanabe é chefe da seção de “Relações Públicas” ou “Seção de Cidadãos”, da Prefeitura de Tóquio. Viúvo, ele dedicou sua vida ao filho e seu trabalho na repartição consiste apenas em carimbar documentos com reclamações.

Qual seria, então, o sentido de sua vida após receber tão terrível diagnóstico? Afinal, Watanabe não desenvolveu nenhum interesse e não fez nada que agregasse valor a sua vida.

Essa questão permeia a história e é valorizada pela interpretação magnífica de Takashi Shimura, com expressão corporal e facial que denotam toda sua angústia, sofrimento e depressão. A tudo isso se junta o desprezo dos colegas de trabalho e de sua própria família. Filho e nora parecem não se importar com Watanabe e nem ao menos lhe dão ouvido.

Sem spoilers, informo que alguns acontecimentos e realizações irão alterar a visão que Watanabe tinha de si mesmo, a percepção dos outros sobre ele e seu legado.

Burocracia

Um dos pontos altos de Viver é expor as mazelas da burocracia no funcionalismo público. Nas rezas que se seguem à morte de Watanabe, seus colegas de trabalho, já embriagados, exibem surpresa ao comentar as últimas façanhas do morto. Em uma cena longa, diante do altar em homenagem a Watanabe, eles admitem a inércia e a cruel realidade do não atendimento ao público usando a burocracia como desculpa. Trata-se de um tema que atravessa Viver do início ao fim.

Durante Viver somos apresentados aos males da burocracia como a falta de empatia no atendimento, funcionários sem autonomia que realizam tarefas repetidas sem entender seus propósitos, desmotivação, apego excessivo a normas e cargos, além de resistência a mudanças e inovações. Kurosawa nos mostra a burocracia como um marasmo, a verdadeira morte em vida.

Elenco: Takashi Shimura, Miki Odagiri, Nobuo Nakamura, Kyôko Seki, Yunosuki Itô e Nobuo Kaneko

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12 thoughts on “Análise do filme: Viver (1952)

  1. Ainda não vi esse do Kurosawa. A novela “A Morte de Ivan Ilitch” é um dos meus livros preferidos da vida. O Tolstói estava passando por uma depressão profunda quando escreveu essa história, por isso a história é tão densa. É o livro mais depressivo que eu já li. Assistirei esse filme assim que for possível.
    Parabéns pela resenha, Beatriz!

  2. Acabei de assistir o filme e sua crítica faz jus à beleza do mesmo. Esse é um dos poucos filmes de Kurosawa que assisti, sua análise é muito bem feita, parabéns!!

  3. Vou assistir pois é um filme que só de ler a sua análise me tocou de perto, um filme que parece retratar situações da vida mesmo , sistema de saúde que dentro de um âmbito social e lógico político o qual muitos países enfrentam, e veja so! nem imaginava que no Japão tinha esta questão de igual forma que na América do sur. Você foi impecável na sua análise mesmo não tendo assistido ainda este filme trouxe informações importantíssimas.

  4. Esse é , pelo que você descreveu, querida Bia, um filme super atual e que deve ter se abrilhantado pela genialidade de kurozawa.
    Obrigada pela sua escrita, sempre somando.
    Bj
    Silvia

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