Bizarrices de O Agente Secreto

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“Um filme se torna clássico com o aval do tempo”, é o que afirma o crítico Alexandre Barros, da Sou Mais Pop. Passados mais de seis meses desde que passou a ser exibido nos cinemas, acredito que O Agente Secreto (2025) passou no teste.

Recomendo assistir ao filme mais de uma vez, pois suas múltiplas camadas se revelam quando se revisita a obra.

Como todos sabem, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, é um filme sobre a Ditadura Militar ambientado na década de 1970, e foi gravado em Recife e São Paulo em apenas dez semanas.

O longa é um thriller político com muitos elementos de suspense, alguns toques de terror e trash e pitadas de surrealismo, protagonizado por Wagner Moura. Diretor e ator já planejavam trabalhar juntos desde Bacurau. O papel de Marcelo/ Armando foi criado para Wagner Moura.

O Agente Secreto recebeu durante a temporada de premiações dois Globos de Ouro, dois prêmios em Cannes de Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho e Melhor Ator para Wagner Moura, além de 85 outras premiações.  

O longa apresenta algumas bizarrices com personagens bem diferentes como D. Sebastiana, animais agressivos, e outros fantásticos como o gato de duas cabeças, e uma perna surreal. Tudo tem um sentido e cada um desses elementos não está lá por mero acaso.

Seguem algumas curiosidades:

  1. No início do longa há um texto que mostra que é o ano de 1977, descrito como um período de muita “pirraça” no Brasil. A palavra pirraça” é um recurso que o diretor usou para definir o contexto: uma época de teimosia, provocação e resistência. A pirraça é um comportamento que denota rebeldia e dificilmente pode ser traduzida em outra língua, assim como as expressões raparigueiro e mambembe, também usadas no filme.
  2. A pirraça aparece como símbolo de resistência popular, teimosia política e social em relação à ditadura, à falta de memória e ao apagamento de pessoas e suas histórias no país.
  3. A ideia para a trama veio de uma notícia de um jornal australiano sobre um tubarão encontrado com uma perna humana em seu ventre. E Kleber traz para a cena o filme Tubarão (1975), de Steven Spielberg, que estava sendo exibido no Recife. O filho do protagonista sofre com medo de tubarão.
  4. Durante o filme inteiro observa-se a mistura entre a música e o cinema americano e a cultura brasileira e pernambucana. Há inúmeros exemplos como quando Marcelo/Armando dirige pelo interior de Pernambuco em pleno carnaval, e segue escutando a balada americana If You Leave Me Now (1976), do grupo Chicago.
  5. Tanto o filme Tubarão, como o livro homônimo de Peter Benchley, se baseou na peça Um Inimigo do Povo, do dinamarquês Henrik Ibsen. Nesta peça, um médico tenta alertar a população de uma cidade com águas termais para a contaminação local, mas é ostracizado por causa do interesse da cidade em se manter como polo turístico. Algo parecido com o que ocorre no filme Tubarão, com o personagem de Roy Scheider e com o professor Marcelo/Armando de O Agente Secreto, que não cede aos interesses de um industrial ligado às forças da ditadura. E que por isso também é excluído e perseguido.
  6. Em O Agente Secreto, como em Tubarão e na peça Um Inimigo do Povo, os protagonistas são pessoas íntegras que não se corrompem aos interesses dos poderosos.
  7. Vale destacar que essa escolha também se refere ao problema dos tubarões em Recife.
  8. Feita por computação gráfica, a gata de dois rostos, ou diprosopia, tem dois nomes Liza e Elis, um nome inglês e outro brasileiro, destacando a tendência de Kleber Mendonça em utilizar elementos brasileiros e estrangeiros nesta obra. Lembrando ainda que a gata é mais uma sobrevivente salva por Dona Sebastiana, já que ia ser sacrificada. Mais uma das muitas metáforas do filme, desta vez com um toque surrealista.
  9. Marcelo/Armando também usa dois nomes e, apesar de ser um professor universitário, tem que se comportar como um verdadeiro agente secreto escondendo-se de várias maneiras, vivendo na clandestinidade.
  10. O caso da perna cabeluda traz elementos do cinema de terror e trash para O Agente Secreto. Trata-se de uma lenda urbana em que a população passa a relatar casos de violência causados por uma perna com vida própria. Vale lembrar que a perna cabeluda é uma lenda urbana antiga em Recife.
  11. Nos anos 1970, o jornalista e escritor Raimundo Carrero criou textos sobre uma pretensa e absurda perna autônoma para evidenciar os excessos da ditadura, algo que outros jornais faziam com receitas culinárias e poemas. A história pegou e os recifenses passaram a falar de chutes e pontapés que recebiam da perna cabeluda. Os radialistas Jota Ferreira e Geraldo Freire também se consideram criadores da pauta.
  12. Policiais corruptos passaram a atacar grupos minoritários como os homossexuais e culparem a perna cabeluda.
  13. No filme, a perna pertence a uma pessoa morta pelos policiais.
  14. Outra bizarrice do longa é a cena em que o judeu alemão, interpretado por Udo Kier (1944-2025), tem que fingir ser um soldado alemão diante dos agentes da ditadura.

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