
Direção: Rainer Werner Fassbinder
No elenco: Brigitte Mira, El Hedi ben Salem, Irm Hermann, Barbara Valentin, Liselotte Eder, entre outros.
O diretor alemão era admirador de Douglas Sirk, e este filme é uma homenagem ao mestre do melodrama, em especial a Imitação da Vida
.O roteiro aborda um casal que se forma a partir da exclusão social e da consequente solidão. O romance entre Emmi e Ali — ela, uma sexagenária viúva há duas décadas, com filhos casados; ele, cerca de vinte anos mais jovem, imigrante marroquino em uma Alemanha que ainda carrega as cicatrizes do nazismo — surge como um alívio para ambos.
Emmi é pobre e sobrevive fazendo faxinas. No entanto, recorda com orgulho o passado do pai como membro do partido nazista e emociona-se ao almoçar no mesmo restaurante outrora frequentado por Hitler. Nem sequer percebe que seu marido seria motivo de horror para o Führer.
Ali é “um árabe quase negro”, como diz uma vizinha. O que levou um homem jovem e bonito a se aproximar de uma mulher muito mais velha — em uma época em que ter sessenta anos significava muito mais — e considerada pouco atraente? Ela o enxergou como gente.
“Os árabes não são gente” é uma frase repetida diversas vezes pelo personagem, assim como aquela que dá título ao filme. Emmi também volta a ser vista, amada e desejada depois de muito tempo. Não como uma velha, uma faxineira ou uma avó útil, mas como uma mulher.
A sociedade, porém, não aceita essa relação e passa a isolar o casal. Das vizinhas fofoqueiras aos comerciantes que se recusam a atendê-los, chegando, por fim, aos filhos de Emmi, todos contribuem para reforçar essa exclusão.
A fotografia transmite com precisão essa sensação: closes nos rostos e enquadramentos fechados evocam a claustrofobia de quem sente medo até mesmo de sair do apartamento.
Após uma viagem, essa mesma sociedade passa a enxergar a utilidade do casal e decide “aceitar” o imigrante. Infelizmente, a própria Emmi passa a exibir o marido como um troféu: “Ele tem músculos fortes e toma banho…”, reproduzindo o mesmo comportamento daqueles que antes a discriminavam.
Fassbinder rodou o filme em apenas duas semanas, como um exercício cinematográfico. O resultado, entretanto, é uma das pérolas do Novo Cinema Alemão: uma história profundamente humana sobre o amor, a solidão e o preconceito, cuja força permanece intacta até hoje.
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