103 Anos do Nascimento de Bola Sete.

Datas Música

Bola Sete, nome artístico de Djalma de Andrade (1923–1987), foi um dos maiores violonistas virtuosos do Brasil, reconhecido mundialmente por fundir com perfeição o samba, o choro e o jazz. Curiosamente, o músico carioca fez história ao se consolidar no cenário musical dos Estados Unidos, tornando-se muito mais famoso no exterior do que em seu próprio país natal.

Nascido no Rio de Janeiro e ganhou o apelido por ser o único integrante negro em um de seus primeiros grupos de música (uma referência à bola 7 do bilhar). Aprendeu cavaquinho e violão na infância, estudou na Escola Nacional de Música e foi aluno do prestigiado maestro Moacir Santos.

A carreira profissional de Bola Sete começou oficialmente no ano de 1945, quando ele tinha 21 anos de idade. Embora já tocasse em dancings e rodas de músicos na Praça Tiradentes (no Rio de Janeiro) e fizesse pequenas turnês pelo interior desde a sua adolescência, o marco inicial de sua trajetória profissional ocorreu ao vencer um concurso de violão na Rádio Transmissora (que mais tarde se tornaria a Rádio Globo).

1945–1948: Apresentou-se no famoso programa Trem da Alegria no Teatro João Caetano, trabalhando ao lado de grandes nomes como Lamartine Babo.

Bola Sete organizou o seu próprio grupo por volta de 1948. Logo após deixar o programa Trem da Alegria (onde atuou até 1948), ele montou o Bola Sete e Seu Conjunto e convidou a jovem Dolores Duran — que na época trabalhava como crooner da boate Beguin — para ser a vocalista do grupo. Juntos, eles fizeram grande sucesso tocando nas noites cariocas, especialmente nas badaladas boates Drink e Vogue.

Em 1949, ele lançou o seu primeiro disco de 78 rotações pela gravadora Star, tocando composições próprias. Nos anos 50, o conjunto seguiu gravando discos por selos como a Continental e a Sinter, além de realizar turnês internacionais históricas pela América Latina e Europa antes de o violonista se mudar para os EUA. Ele migrou definitivamente para os EUA em 1959.

Nos Estados Unidos, ele foi descoberto pela lenda do jazz Dizzy Gillespie e tornou-se mundialmente aclamado ao tocar com o pianista Vince Guaraldi. Apresentou-se com imenso sucesso no lendário Monterey Jazz Festival e foi eleito o melhor guitarrista do ano pela prestigiada revista americana Down Beat em 1965.

A genialidade de Bola Sete residia em sua técnica impecável: ele conseguia usar o violão simultaneamente como instrumento solista, base harmônica e seção rítmica. O icônico guitarrista Carlos Santana declarou publicamente que Bola Sete foi uma de suas maiores influências, colocando-o no mesmo patamar de divindades da música como Jimi Hendrix e o violonista clássico Andrés Segovia. Além disso, na famosa enciclopédia norte-americana Encyclopedia of Jazz in the Sixties, o espaço dedicado a ele é maior do que o de gigantes do jazz americano como Wes Montgomery e Joe Pass.

As músicas mais conhecidas de Bola Sete dividem-se entre composições autorais de alta complexidade técnica e interpretações geniais de clássicos da bossa nova, choro e jazz.

Bettina: Uma de suas criações mais famosas no exterior. Curiosamente, essa música ganhou uma sobrevida histórica ao ter seu ritmo e acordes sampleados pelo famoso grupo americano de hip-hop A Tribe Called Quest.

Soul Samba: Verdadeira assinatura musical do violonista, que mistura com perfeição a batida do samba brasileiro com o balanço do soul e do jazz americano.

Mambeando: Grande sucesso de ritmo contagiante gravado ainda nos anos 50, que mostrava sua versatilidade ao incorporar os ritmos caribenhos muito antes de se mudar para os EUA.

Flamenco / Flamenco Fantasy: Uma peça virtuosíssima que demonstra a profunda influência da música espanhola em sua técnica de violão solo.

Tô de Sinuca: Um choro rápido e espirituoso com linhas melódicas complexas, muito cultuado por estudantes e amantes do violão clássico.

Além de outras músicas em parcerias ou até mesmo interpretações dele de músicas consagradas, como:

Ginza Samba: Gravada em parceria com o pianista de jazz Vince Guaraldi. É uma das faixas mais conhecidas de Bola Sete nas plataformas de streaming e ajudou a consolidar a fusão do jazz com a bossa nova nos EUA.

Manhã de Carnaval: A sua interpretação instrumental para este clássico de Luiz Bonfá e Antônio Maria é considerada uma das mais bonitas e intensas já registradas. A Felicidade / Favela: Releituras viscerais das obras de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, onde Bola Sete exibia sua capacidade única de fazer a harmonia, o ritmo e o solo acontecerem ao mesmo tempo no violão.

Voodoo Village: Uma reinterpretação mística de uma melodia de Vadico e Noel Rosa que se tornou muito popular em suas apresentações nos festivais americanos.

O músico lutou de forma privada e resiliente contra o câncer de pulmão durante a maior parte de sua última década de vida. Para lidar com a falta de ar e os sintomas severos da doença, Bola Sete recorreu intensamente à ioga e à meditação. Ele utilizava técnicas de controle da respiração (pranayama) para aliviar o sofrimento.

Mesmo muito debilitado fisicamente e com a saúde severamente comprometida, ele se recusou a abandonar a música. O violonista continuou praticando, compondo e tocando em sua residência até os seus últimos momentos. Nos dias anteriores à sua morte, seu estado agravou-se drasticamente após contrair uma pneumonia. Com o sistema imunológico fragilizado pelo câncer, ele precisou ser hospitalizado às pressas, onde acabou não resistindo.

Bola Sete faleceu em 14 de fevereiro de 1987, aos 63 anos, em decorrência de complicações provocadas por um câncer de pulmão e uma pneumonia. Ele estava internado no Marin General Hospital, na cidade de Greenbrae, na Califórnia (EUA).

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