A desintegração da identidade humana é tema comum tanto no horror corporal quanto no horror cósmico, com o primeiro gênero se focando na questão física e na perda de controle dos próprios órgãos enquanto o segundo é algo mais externo, a fragmentação a remodelação da realidade, a perda de controle da psique, assim, são temas que conectam com facilidade entre si, sendo esse binômio de temas o núcleo do filme Amado Pai.
O filme é dirigido por Leo Miguel e estrelado por Paulo Serra, com forte participação nos bastidores dos canais brasileiros de terror Refúgio Cult, Carnioficina, Trasheira Violenta e Rafa Camargo, o primeiro filme distribuido pela no Brasil pela 4U Pictures, sendo uma obra inicialmente criado com apoio de financiamento coletivo.
Aqui Paulo interpreta Samuel, um cuidador de idosos que precisa ir cuidar do próprio pai após anos separados, alguém com uma doença terminal desconhecida. Ao reencontrar o genitor, vai descobrir toda uma vida e pessoas que ele conheceu, entrando em um mundo de degradação física e mental progressivos.

Primeiramente fica o elogio para os trabalhos de maquiagem em cima da pele do pai ( interpretado por Ataíde Arcoverde, cuja atuação ajuda a reforçar o clima) que transmite um ar de podridão angustiante ao mesmo tempo com um aspecto factível.
Em segundo lugar, a atuação de Paulo. É visível como cada pequena ação do dia a dia vai ficando cada vez mais penosa e angustiante com o passar dos dias, de estranhamento a cada interação com as supostas amizades do pai.
Até onde é o desgaste de cuidar de um parente com poucos recursos atuando? Até onde uma possível doença real transmitida de pai para filho? Até onde a manifestação de um trauma psíquico guardado por anos finalmente estourando na forma de loucura? Até onde existe uma maldição devorando tudo e a todos?
Assim a história vai caminhando, beirando ao minimalismo de um lado, por ser quase tudo em pouquíssimos ambientes e personagens, ao mesmo tempo em que o personagem se vê perdendo o controle da própria vida, com cenas cada vez mais gore até o fim grotesco.
Outro destaque fica para a trilha sonora com toque oitentista que remete aos filmes de Jonh Carpenter, outro mestre que também já trabalhou nesses dois gêneros do horror.
Tudo isso unido por uma premissa simples: quem cuida do cuidador? A saúde física e mental dos cuidadores, assim como dos profissionais de saúde, é um tema pouco debatido e ligado a diversos problemas atuais, com os filmes atuando como uma ótima fábula macabra sobre o tema.
Artigo por Luiz Cecanecchia do canal Monstros e Aventuras
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