Ecoansiedade: como fortalecer emocionalmente crianças em tempos de crise climática?

Comportamento Literatura

A psicanalista Denise Fleury indica que a literatura e outras artes são instrumentos para lidar com a ecoansiedade, angústia extrema causada pela destruição ambiental

Mediante um mundo em crise climática, todos nós somos capturados – com as diferenças que acompanham as especificidades de cada idade e contexto social e econômico. Na criança, em especial, pode comparecer como medos difusos, irritabilidade; nos jovens, como desesperança, dentre tantos outros padecimentos, e, nos adultos, como estresse, etc. O fato é que, em se tratando de vidas e seres humanos, todos nós sentimos a crise como desamparo. Proponho não negar a realidade nem a percepção das crianças, mas trabalhar a favor de uma força motriz da psiquê: a pulsão de vida. Nesse panorama, aposto no papel do adulto como mediador da escuta e do vínculo afetivo. A mudança na forma como enfrentamos os medos, diante deste mal-estar, pode fazer toda a diferença.

Proponho fazer um jogo com a quebra da palavra eco e ansiedade e escutar essa desmontagem que chega aos nossos ouvidos como o eco do anseio das crianças. Ansiedade vem de ânsia que pode ser escutada tanto como desejo, vontade, como também náusea por algo indigesto, portanto, uma toxicidade, excesso de algo que as crianças percebem, sentem e vivenciam no seu cotidiano.

Podemos localizar a ecoansiedade como uma resposta emocional e subjetiva que se manifesta num quadro maior: o mal-estar civilizatório. Freud, em seu ensaio Mal-estar na Civilização, nos aponta para algo irremediável: a renúncia ao próprio gozo, que funda o processo civilizatório. Quando nos aproximamos da visão de mundo das culturas ameríndias, observamos que, para eles, “a condição original comum aos humanos e animais é a humanidade”. Entre o mal-estar freudiano e os ameríndios encontramos, de um lado, o processo do gozo predatório e da dominação sem limites e, de outro, uma relação de interdependência entre seres humanos e natureza. Nesse sentido, a ecoansiedade pode ser escutada como efeito de uma ruptura e visão predatória da natureza.

O lúdico enquanto mediação 

A literatura pode contribuir significativamente para que crianças e adultos possam lidar com temas sensíveis de forma contextualizada e atual. Para citar um exemplo, Cyber Panc e Só Zé (Mariana Brecht, 2026) provoca a reflexão crítica sobre os impactos das mudanças climáticas do ponto de vista de duas crianças e sobre a necessidade de ações efetivas. Mariana Brecht lança mão de uma gramática ecológica que faz a ponte entre literatura e meio ambiente, apresentando para o leitor esse “planeta verde”, a terra como um planeta vivo, em que seres humanos, natureza e também espaços urbanos fazem parte da cadeia chamada vida. Na obra, os personagens são inventivos e saem em busca de uma solução. Interessante colocar as crianças neste lugar de protagonismo e ação, isso não é novo na literatura infantil e juvenil, mas, talvez, em tempos digitais e analógicos esse protagonismo proativo esteja em falta, em desuso. O que Mariana Brecht faz é resgatar crianças ativas, confiantes, que se arriscam e imaginativas.  É preciso imaginar para começarmos a pensar um futuro possível e a literatura tem esse poder. 

Cada criança deve ser ouvida no seu modo singular de sentir e falar, uma vez que o desequilíbrio ambiental pode capturá-la num estado de perigo iminente. Há sinais que indicam estados de ansiedade e insegurança neste contexto. Por exemplo, acompanhei um caso de uma criança que se agarrava aos seus animais de estimação com muita obstinação e se angustiava ao sair de casa. Esta manifestação denota, embora de forma indireta, o medo diante da iminência da morte e também uma fantasia de que a sua presença física impediria a perda. Pode parecer algo desconectado, mas não é. A escuta do inconsciente infantil comparece até nos atos aparentemente bem intencionados de cuidar. Neste caso, a criança ainda não conseguia dizer de seu medo de perder algo, alguém ou de sua impotência diante de um mundo em crise ou futuro incerto, mas que, para ela, comparecia como ameaça a todos. Dessa forma, ela faz um arranjo psíquico e imaginário que lhe provê provisoriamente uma “solução”. 

A linguagem simbólica é fundamental para que os pequenos se apropriem de suas próprias formulações acerca do mundo e de si na relação com o outro. As histórias, brincadeiras e metáforas são formas potentes de auxílio para a elaboração de emoções complexas, pois estabelecem o jogo e o lúdico, fazendo deslocar afetos difíceis de suportar e nomear. A literatura e a fala possibilitam deslocar e transportar de um lugar para outro as palavras e seus significados. Por meio das metáforas, as crianças se transportam de um mundo a outro, são capazes de suspender algo da ordem do real, como a angústia. O lúdico oferece à criança força pulsional pelas vias do humor e do jogo, tornando-a mais forte, ativa e capaz de elaborar afetos e temas difíceis. Ao acolher, contar histórias, conversar e criar espaço e tempo para que as crianças se expressem, estamos construindo e possibilitando narrativas feitas em conjunto. 

Como pais e educadores podem lidar com a ecoansiedade infantil?

Dessa forma, os adultos conseguem abordar questões difíceis sem gerar mais angústia. A escuta é a porta de entrada para o acolhimento. Antes de qualquer explicação, permitir que a criança fale, se expresse e coloque em palavras o que a aflige. O erro mais comum, ao tentar protegê-la, é negar o que ela sente ou percebe, interrompê-la ou precipitar e falar por ela ao invés de esperar que ela mesma fale e se coloque diante de seus afetos e sentimentos. Isso não só não funciona como a devolve a um lugar obscuro e de impotência. O manejo da informação com o cuidado emocional pode ser mais simples do que parece. Por exemplo, proporcionar passeios nos quais seja possível o contato com a fauna e a flora em seus estados naturais. Como aponta a Sociedade Brasileira de Pediatria, “a conexão com a natureza pode fazer parte da cura para os maiores desafios da humanidade contemporânea e da construção de uma vida de mais bem-estar e felicidade.”  

Estamos a nomear a ecoansiedade como um sintoma que enlaça sujeito, sociedade e natureza. Se, por um lado, gera ansiedade, também nos convoca a agir. No lugar do medo, colocamos palavras, afeto, humor, criatividade e estabelecemos vínculos. Ao estimular a conexão da criança com a natureza, estaremos promovendo o que a ecopoética de Manoel Barros traduz como “a gramática expositiva do chão”. 

*Denise Fleury Curado é psicanalista, psicóloga, pedagoga e mestre em educação, natural de Goiânia (GO). Sua trajetória une a clínica psicológica à literatura, com foco na subjetividade humana e nas relações afetivas. É autora de Senhora M e outros contos (Editora Caravana, 2024), Quem conhece os gatos do vovô? (SemiBreve, 2022) e Benjamin (SemiBreve, 2025), com Giralda & Geraldo no prelo. Sua crônica “O cortejo” recebeu menção honrosa no Concurso Adélia Prado (2019), e, em 2025, foi reconhecida com o Prêmio Buritis na categoria Livro, Leitura e Literatura. Também realiza rodas de conversa em escolas e Centros de Atendimento Socioeducativo de Goiás.

Loading

Compartilhe nosso artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *