Direção: Laís Bodansky Com: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, Altair Lima, Jairo Mattos, Dani Nefussi nos papéis principais.
Considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos pela Abraccine.Inspirado no livro autobiográfico Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, o filme de estreia de Laís Bodansky causa impacto em quem o assiste pela primeira vez, assim como a cada revisão.
O autor enfrentou processos e teve que recolher sua obra na ocasião do lançamento do filme, já que citava os nomes de psiquiatras famosos e clínicas.O filme é um retrato não apenas de como os hospitais psiquiátricos enlouqueciam ou cronificavam os problemas dos pacientes, mas também mostrava a família como manicômio.
A atuação de Rodrigo Santoro, ainda muito jovem, é orgânica e visceral…, tendo rendido a ele o atual Prêmio Grande Otelo, na época Grande Prêmio Cinema Brasil.Ele carrega o filme e faz dele o que é.
O protagonista passa pelo inferno e volta vivo para contar.Neto é um adolescente, não gosta de estudar, não dialoga com os pais e, como muitos nessa fase, usa maconha e picha muros. Fatos que seu pai não aceita nem entende e acaba por interná-lo não em uma clínica de reabilitação, mas em um hospício.
Aqui podemos abrir um parêntese: a obra de Austregésilo, que se tornou ativista antimanicomial, se passa em 1974; a de Bodansky, no início do século XXI.As cenas brutais de eletrochoques, injeções de sossega-leão, a sujeira dos internos imersos em suas próprias fezes talvez não fossem tão comuns, talvez… Eu, pessoalmente, perdi um amigo de adolescência. O motivo? Suicidou-se com um cinto na clínica em que se internou por livre e espontânea vontade para tratar uma depressão grave. Isso não foi há tanto tempo, mas em 2018. Onde conseguiu esse cinto com o qual se enforcou em uma clínica conhecida aqui do Rio?
A questão familiar: Neto é o único filho homem. Seu pai espera dele um companheiro de torcida de futebol, não um rapaz introvertido que usa brinco.Da mesma forma, a mãe não tem voz, não tem renda e se torna passiva diante da situação.Em uma carta, o jovem escreve: “Você conseguiu, eu sou menor do que você agora.”Othon Bastos e Cássia Kiss trabalham bem, mas o show de interpretação é de Rodrigo.Seu olhar de desamparo misturado com derrota após cada injeção, cada “solitária”, cada sessão de choque… A perda da força muscular misturada com a perda da inocência…Como diz um personagem: “Qualquer um pode enlouquecer, ao passar fome, ao ver uma pessoa que ama morrer, ao perder o que for.” Seriam os “loucos” apenas pessoas infelizes e as instituições locais de loucura?Um psiquiatra se droga com álcool e comprimidos enquanto vê, da sua janela, os internos andando nus sobre seus dejetos, emblemática demonstração da relação da moral com o poder.
Escolha muito acertada da diretora: a câmera alucinada, junto com músicas rap, para trazer a urgência da juventude, depois trocada pela sedação, pelo vazio desesperado até a aceitação.
Após o lançamento da obra, o movimento pelo fim da institucionalização a longo prazo e as vigilâncias sobre as mesmas aumentaram no país.Também foi muito bem recebido e premiado em festivais internacionais, como Melhor Filme em Biarritz Amérique Latine e o de mesma categoria em Créteil.Quem tem olhos, veja: um importante filme-denúncia, uma das maiores atuações do cinema brasileiro. Uma grande direção.
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Perfeito sua análise, realmente concordo com vc que Rodrigo Santoro estava magistral, lembrando que Rodrigo Santoro e Gero Camilo trabalharam novamente em Carandiru – parabéns pelo artigo minha amiga
Obrigada, não lembrava de Carandiru, assisti há muito tempo.
Um grande filme do cinema brasileiro, Rodrigo Santoro arrebenta, excelente atuação de Gero Camilo também
Estão maravilhosas, é um filme denúncia incrível
Parabéns pela resenha, Natasha! Uma das melhores atuações da carreira do Rodrigo Santoro! Também gostei bastante da atuação dele em Heleno. Outro grande filme!
Obrigada, não assisti Heleno.
Parabéns pela matéria.
Pra mim uma das melhores interpretação do Rodrigo Santoro.