ANÁLISE 90 DECIBÉIS (2025)

Critica de Filmes Inclusão Representatividade

Lançado em 2025, 90 Decibéis tem direção de Fellipe Barbosa e roteiro de Julia Spadaccini. A produção dos Estúdios Globo acompanha uma mulher que precisa enfrentar profundas transformações em sua vida pessoal e profissional depois de descobrir que está perdendo a audição de forma progressiva.

Na trama, Ana, interpretada por Benedita Casé Zerbini, é uma advogada bem-sucedida e mãe de Theo. Após sofrer um acidente de carro com o filho, ela percebe que sua dificuldade para ouvir está aumentando. Os exames confirmam que o quadro continuará avançando até chegar à surdez profunda.

A Rede Globo exibiu 90 Decibéis na Tela Quente, em uma exibição que também dialoga com o Dia Nacional dos Surdos, celebrado em 26 de setembro. A produção já havia chamado minha atenção anteriormente, principalmente pelas informações sobre a participação de pessoas com deficiência na realização do filme.

Um dos aspectos que mais me impressionou é justamente a inclusão acontecendo não apenas diante das câmeras, mas também nos bastidores. Cerca de 70% das pessoas envolvidas na produção, entre atores, figurantes e integrantes da equipe técnica, são pessoas com deficiência. Destaco esse dado logo no início porque acredito que ele representa um exemplo importante de inclusão na prática.

Como alguém apaixonado pela produção audiovisual, vejo isso com muitos bons olhos. É importante que pessoas com deficiência tenham espaço não apenas como personagens ou temas de uma história, mas também como profissionais responsáveis pela construção dessas obras. Espero que iniciativas como essa contribuam para que tenhamos cada vez mais produções capazes de levar diferentes experiências e perspectivas para as telas.

Acompanhar Ana desde o início da história é uma experiência emocional muito intensa. O filme apresenta sua dificuldade de aceitar a nova realidade, os desafios provocados pela progressão da perda auditiva e, ao mesmo tempo, as responsabilidades da maternidade solo.

Tudo isso acontece enquanto ela também precisa enfrentar situações de capacitismo e preconceito, principalmente em ambientes nos quais deveria existir mais empatia e compreensão.

Foi justamente nesse aspecto que 90 Decibéis se tornou uma grata surpresa para mim. A obra consegue abordar essas questões com uma sensação de verdade muito grande, mostrando situações que dialogam diretamente com os obstáculos enfrentados por muitas pessoas com deficiência no cotidiano.

Isso aparece, por exemplo, nas dificuldades encontradas no mercado de trabalho, na falta de empatia e na luta pelo respeito e pela garantia de direitos.

O filme também apresenta uma importante discussão sobre inclusão escolar. Em determinado momento, Ana defende o direito de uma criança autista frequentar uma sala de aula regular e faz um monólogo que, para mim, está entre os momentos mais marcantes da produção.

Ela fala sobre a existência de um “muro invisível” criado pela sociedade entre pessoas com deficiência e pessoas sem deficiência. Quando uma criança autista entra em uma sala de aula regular, essa criança seria como um trator derrubando esse muro.

Essa metáfora me chamou muito a atenção porque resume uma questão que ultrapassa o ambiente escolar. Muitas vezes, a própria sociedade cria barreiras que dificultam a convivência, a participação e a igualdade de oportunidades. A inclusão, portanto, não deveria significar simplesmente permitir que alguém esteja presente, mas garantir que essa pessoa possa participar de verdade.

Outro ponto que considero muito interessante é a maneira como o filme apresenta a vida afetiva de Ana. Mesmo sendo mãe, separada e vivendo um processo de transformação pessoal, ela se permite experimentar um novo relacionamento com um homem que também tem deficiência.

A relação entre os dois funciona muito bem. Existe química entre os personagens, e o romance não é tratado como algo excepcional ou estranho por causa da deficiência. Eles simplesmente se relacionam, se conhecem, se envolvem e constroem uma conexão.

Isso é importante porque também quebra outro estereótipo: o de que pessoas com deficiência não possuem desejos, relacionamentos ou vida afetiva.

Benedita Casé Zerbini também merece destaque. Em sua estreia no cinema, ela conduz a protagonista com bastante sensibilidade e consegue transmitir diferentes fases da trajetória de Ana, desde a dificuldade inicial de compreender sua nova realidade até os momentos de enfrentamento e transformação.

O roteiro, por sua vez, apresenta uma história acessível, sem transformar a discussão em algo excessivamente complexo. Os diálogos são bem construídos e as situações conseguem desenvolver os temas de maneira natural.

A representação da surdez também é um dos pontos fortes da obra. O filme não utiliza a deficiência apenas como um recurso dramático para provocar emoção. Ela faz parte da vida da personagem e interfere em diferentes aspectos de sua rotina, permitindo que o público compreenda melhor algumas das dificuldades e adaptações envolvidas nesse processo.

Ao mesmo tempo, 90 Decibéis não se limita a falar sobre perda auditiva. A obra amplia sua discussão para temas como representatividade, capacitismo, maternidade, inclusão, mercado de trabalho, relacionamentos e respeito às diferenças.

E talvez seja justamente essa combinação que faça o filme funcionar tão bem.

É uma história fictícia, mas existe nela uma sensação de realidade muito forte. Muitas das situações apresentadas poderiam acontecer na vida de pessoas que convivem diariamente com algum tipo de deficiência.

Por isso, acredito que 90 Decibéis seja uma obra que pode alcançar públicos de diferentes idades. É um filme que fala sobre deficiência, mas, acima de tudo, fala sobre pessoas.

Para mim, esse é um dos maiores méritos da produção: não transformar a deficiência em toda a identidade dos personagens. Eles têm profissão, família, desejos, relacionamentos, conflitos, sonhos e responsabilidades.

Além de uma boa história e de atuações que funcionam muito bem, temos uma produção que coloca pessoas com deficiência em diferentes espaços, tanto diante quanto atrás das câmeras. E isso tem um valor enorme para o audiovisual brasileiro.

90 Decibéis é um drama que aborda temas importantes sem perder sua humanidade. É uma obra sobre mudanças, preconceito, inclusão e, principalmente, sobre a necessidade de enxergar pessoas com deficiência para além dos estereótipos.

É um filme profundo, emocionante e extremamente necessário para os dias de hoje.

Direção: Fellipe Barbosa
Roteiro: Julia Spadaccini

Elenco:

Benedita Zerbini como Ana Dutra
Stefano Carta como Pedro
Leandro Ramos como Sidney
Andrea Neves como Regininha
Haonê Thinar como Yara
Cleber Tolini como Jurandir
Pedro Fernandes como Kadu
Jadson Abraão como Bira
Maurício Destri como Carlos
Bukassa Kabengele como Roberto
Pedro Neschling como Leonardo
Isabel Fillardis como Pilar
Pedro Henrique França como Atendente de RH

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