Ramos: “O jornalismo venezuelano transformou-se em um plantão no hospital e um pronto-socorro”

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Há madrugadas para os exilados em que o telefone não toca por afeto, mas por susto. Para a jornalista venezuelana Andreina Ramos, isso aconteceu em 3 de janeiro, às 1h30 da madrugada. Começaram a chegar notificações e ligações que interromperam seu descanso; ela se levantou mais uma vez para entrar no ar em seu programa “Ponte al Día”, no YouTube, após a prisão de Maduro e de sua esposa.

Em exclusividade, a equipe do Sou Mais Pop entrevistou a jornalista Andreina Ramos, cujo canal conta com mais de 100 mil assinantes e 25 milhões de visualizações. Ramos tornou-se a voz que transmite os acontecimentos do dia a dia dos venezuelanos, uma realidade que se recusa a desaparecer por meio do jornalismo investigativo.

“Ponte al Día é um projeto familiar; conto com o apoio do meu marido. Estabelecemos como meta informar sobre a situação na Venezuela e temos recebido muito apoio ao longo desses dois anos. É um trabalho que exige muita dedicação, já que saímos todos os dias, pela manhã e à tarde, inclusive nos fins de semana. Não dá para ficar alheio ao que acontece no país”, contou Ramos.

“O objetivo do Ponte al Día sempre será os venezuelanos que estão dentro do país, pois são eles que sofrem. Da mesma forma, os presos políticos são uma prioridade no programa. E nós, que estamos fora, somos uma ferramenta para dar visibilidade ao que acontece na Venezuela, devido à censura no país”, afirmou.

Antes de Ramos fundar o “Ponte al Día” ao lado do marido no exílio, sua escola foi a rua larense. Ela começou em 2009 na produção de programas de rádio. Depois, passou seis anos como redatora de notícias, repórter política, âncora do noticiário e trabalhou na coordenação das coberturas comunitárias na Promar TV. De 2019 até sua saída do país em 2023, foi os olhos e a voz de Lara, sua terra natal, para o canal VPItv.

Carreira com obstáculos

Na Venezuela, o jornalismo “é uma carreira de obstáculos e coragem”, diz Ramos, mas a frase fica curta diante dos fatos. Durante o grande colapso elétrico nacional, quando os hospitais estavam à luz fraca, Ramos entrou no Instituto Venezuelano de Previdência Social para registrar como as salas de emergência resistiam sem luz. A resposta do Estado foi imediata: militares da Guarda Nacional a trancaram em uma sala escura, ameaçando processá-la criminalmente até obrigá-la a apagar todo o material.

Em outras ocasiões, não houve salas fechadas, mas sim tiros à troca. Em 20 de fevereiro de 2020, durante uma manifestação liderada pelo político Juan Guaidó em Barquisimeto, estado Lara, grupos de choque paramilitares abriram fogo contra a multidão e perseguiram os repórteres. A cobertura de Ramos viralizou imediatamente; a retaliação não demorou a chegar: Diosdado Cabello citou seu nome na televisão aberta. A denúncia veio acompanhada da retirada forçada, do confinamento preventivo entre quatro paredes e do medo real de que a próxima patrulha fosse atrás dela.

A isso se soma o desgaste diário: gás lacrimogêneo, tripés chutados, microfones arrancados por policiais e a recusa sistemática do governo em divulgar qualquer informação ao público. “Trabalhar nesse ambiente significa aceitar que o Estado te trata como um criminoso pelo simples fato de ser jornalista”, admitiu.

O êxodo e seu sabor amargo

Em 2023, a corda se rompeu. Sem emprego formal na mídia local, com a renda evaporada pela hiperinflação e com a responsabilidade de sustentar o filho, Andreina e o marido tomaram a decisão que milhões de compatriotas já haviam feito antes: fazer as malas. Mas o exílio tem um veneno silencioso. A distância não alivia; ela intensifica a culpa de quem deixa seu povo em meio a uma tragédia que parece não ter fim.

Nos últimos anos, o êxodo forçado levou dezenas de jornalistas a cruzar a linha para o ativismo partidário, alegando a urgência moral ou a raiva acumulada. Andreina não aceita essa desculpa.

“Para mim, é absurdo ver um jornalista fazendo propaganda ou proselitismo a favor de um lado. Deveria ser proibido que ele fosse militante de um partido político, porque nunca será imparcial. A imprensa deve servir aos governados, não aos governantes. Se o repórter se ajoelha diante de um lado político, deixa de ser jornalista e passa a ser assessor de relações públicas” argumentou Ramos.

Da mesma forma, Ramos reconhece os jornalistas venezuelanos que continuam trabalhando pelo país e não desistem. “Eu os admiro, os respeito e valorizo muito o trabalho que realizam, especialmente aqueles que estão dentro do país, pois qualquer um poderia se cansar com tudo o que está acontecendo na Venezuela”, declarou.

Por outro lado, ela envia uma mensagem contundente aos jornalistas brasileiros para que se olhem no espelho venezuelano e tomem isso como um alerta precoce: quando as instituições se deterioram e o poder começa a erguer barreiras contra a imprensa, a única resposta legítima é a teimosia de continuar buscando a informação, educar o leitor e dar voz àqueles que foram deliberadamente silenciados.

Longe de sua terra, sem uma redação corporativa e armada com a perseverança de uma mulher que conhece o peso do silêncio forçado, Andreina Ramos demonstra que o exílio pode roubar o território, mas jamais a profissão. Enquanto houver alguém do outro lado da tela precisando saber a verdade, a redação continuará aberta.

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