ANÁLISE – CHRONOVISOR (2026)

Cinema

Ao sair da sessão de Chronovisor, filme dirigido pela dupla Kevin Walker e Jack Auen, meu primeiro instinto foi pesquisar mais sobre a produção. A história de uma lenda urbana envolvendo uma máquina experimental que possibilitava enxergar qualquer evento no passado parecia uma fantasia bem original, e eu queria saber mais sobre. Mas fiquei surpreso ao digitar o título na caixa de pesquisa do Google e descobrir que o primeiro resultado não era sobre o filme, e sim sobre o próprio cronovisor. A história é real. Ou, pelo menos, a lenda é.

Eu realmente não gosto da IA do Google. Na verdade, eu tenho um asco por todas as IAs, LLMs e geradores de imagem que estão sendo desnecessariamente enfiados em nos aplicativos e aparelhos que já funcionavam bem sem eles. E confesso que, em comparação, a IA do Google acaba sendo a menos problemática. Mas ainda é irritante. É só uma camada frívola de interação com chatbox que decidiram colocar entre o meu ato de pesquisar e o resultado que o Google já me traria de qualquer maneira. Algumas pessoas acham útil quando o Google finge conversar com você, produzindo um texto que resume as informações que encontrou numa série de sites que ele lista logo abaixo. Eu prefiro apenas acessar essas fontes. Mas, inevitavelmente, acabo lendo o texto antes. Nesse caso, a IA “escreveu” o seguinte: “O cronovisor é uma lenda urbana e teoria da conspiração sobre um suposto aparelho capaz de captar ondas de luz e som do passado para exibir imagens e áudios de momentos históricos”.

Há duas diferenças fundamentais entre a história do Cronovisor e outras lendas urbanas. A primeira é que, mesmo que seja difícil dizer com certeza como a lenda começou, a origem de sua popularidade tem uma data exata. Foi em maio de 1972 que a revista italiana La Domenica del Corriere publicou uma matéria intitulada “Inventata la Macchina che Fotografa il Passato”. O que leva a outra diferença fundamental, que é a existência de personagens reais nessa história. A matéria citava os nomes de pessoas envolvidas com o projeto, que passou anos escondido pelo Vaticano. Entre elas, o cientista nazista Wernher von Braun, o padre e escritor François Brune, o famoso físico Enrico Fermi e, principalmente, o padre, pesquisador, físico e musicólogo Pellegrino Ernetti, que foi creditado como um dos principais criadores do aparelho. O Padre Ernetti contou à revista que através do cronovisor foi capaz de assistir e registrar vários acontecimentos históricos, incluindo a própria crucificação de Jesus Cristo. Uma foto do rosto verdadeiro de Jesus teria sido fornecida para a revista como prova, mas depois foi desmentida como uma imagem modificada de uma figura esculpida em madeira. Depois disso, Ernetti negou que teria fornecido a foto, mas outras publicações da época continuaram cobrando-o por provas concretas. A história foi deixada de lado até François Brune publicar em 2002 seu livro Le Nouveau Mystère du Vatican, relatando esses eventos, confirmando a versão de Ernetti e trazendo uma nova popularidade para a lenda. Hoje a história é contada e recontada por canais de teorias de conspiração no Youtube.

No filme de Kevin Walker e Jack Auen todos esses acontecimentos são contados, mas não recriados com atores. Tampouco se trata de um documentário estilo colagem, com matérias e imagens de arquivo apresentadas sob a voz calma de um narrador incorpóreo. A abordagem experimental dos diretores segue por outro caminho. Pela maior parte do filme, nós seguimos a perspectiva da acadêmica Beatrice Courte, interpretada por Anne Laure Sellier (que além de atriz, também é professora de ciência comportamental). Enquanto trabalhava numa pesquisa sobre os caminhos da memória humana, ela se depara acidentalmente com uma gravação relatando o caso, e decide mudar o rumo de seu trabalho e se dedicar exclusivamente à história do cronovisor. Quando se diz que um filme é experimental, geralmente significa que a obra está tentando reproduzir uma sensação no público que vai além da linguagem habitual do cinema. E quando eu digo que, em Chronovisor, nós seguimos a perspectiva de Beatrice, é exatamente isso que acontece, com a câmera permanecendo nas várias páginas de livros e recortes de jornais e revistas que ela examina em busca da verdade. Compartilhamos com a personagem o próprio ato de fazer uma pesquisa acadêmica, lendo com ela cada parágrafo importante, analisando cada imagem e até mesmo escutando gravações das obras musicais do próprio padre Ernetti. É uma manobra engenhosa do filme, que consegue combinar a lentidão da pesquisa com o mistério instigante da história se revelando aos poucos.

Da mesma forma, nos tornamos testemunhas da frustração de Beatrice com os becos sem saída de sua investigação. E percebemos no próprio olhar da personagem que ela chega a uma conclusão óbvia: a busca pelo cronovisor seria muito mais simples se ela tivesse o próprio cronovisor. A pesquisa de Beatrice vai se confundindo com uma caça ao tesouro na qual ela se encontra cada vez mais isolada, envolta pela crescente tentação do conhecimento fácil que o aparelho poderia fornecer. Os corredores escuros da biblioteca e as sombras de seu apartamento passam a provocar uma sensação surreal de paranoia surreal. O cronovisor se torna então uma metáfora, não apenas para as IAs, mas para a própria crise de informação na qual elas nasceram e que hoje apenas agravam. Os avisos que Beatrice encontra durante a pesquisa, de que o uso contínuo do cronovisor exercia estranhos efeitos colaterais em seus usuários, afetando a percepção de tempo e da realidade, parecem agora assustadoramente familiares. Não há caminhos fáceis para o conhecimento. Aqueles que assim se anunciam levam apenas à loucura.

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