ANÁLISE – A TERRA DO MEU PAI (2026)

Cinema Critica de Filmes História

Em 1933, o escritor Thomas Mann deixou a Alemanha dominada pelo regime nazista, passando a viver em exílio na Suíça e depois nos Estados Unidos. Após o fim da Segunda Guerra, ele retornou pela primeira vez ao seu país natal para participar das comemorações do bicentenário de Goethe, em 1949. Essa viagem de volta apresentou a ele uma nova Alemanha, renascida disforme e dividida em duas, na qual os dois lados pareciam buscar a sua aprovação e validação. A história dessa viagem é recriada em “A Terra Do Meu Pai”, dirigido pelo cineasta polonês Paweł Pawlikowski, com Hanns Zischler interpretando Mann. Visto ao lado de seus dois longas anteriores, “Guerra Fria” e “Ida”, Pawlikowski parece criar uma espécie de trilogia de tratados sobre a Europa pós-Guerra, ilustrados por esses dramas reais e fictícios.

O título original, “Vaterland”, carrega uma série de significados. A tradução mais direta é simplesmente “pátria”, mas o termo é tradicionalmente utilizado pelo povo alemão para se definir exclusivamente ao seu país. No contexto do filme, o termo remete à única e derradeira perspectiva feminina da trama. Zischler compartilha o protagonismo com Sandra Hüller, que interpreta a filha do escritor. Além de também ser escritora, Erika Mann foi atriz de cinema e teatro, e esteve muito presente no cenário cultural da Alemanha antes da ascensão de Hitler. Ela continuou a trabalhar quando acompanhou a família no exílio, mas também começou a atuar principalmente como assistente e tradutora para seu pai. E da mesma forma que Mann precisa confrontar a memória de um país que não existe mais ao mesmo tempo que foi substituído pelo palco do crescente conflito ideológico da Guerra Fria, Erika começa a perceber que os ideais filosóficos do pai não serão o suficiente para curar as feridas que ainda permanecem no solo germânico. A perda de identidade do lado ocidental, ainda convivendo com sinais da passagem do nazifascismo, assim como o crescente totalitarismo do lado soviético, escancaram algumas verdades. A terra do pai dela não existe mais. Talvez nunca tenha existido.

O roteiro de Pawlikowski, escrito em parceria com Hendrik Handloegten, estabelece uma dinâmica aparentemente funcional entre Erika e seu pai, mas que encobre tensões e conflitos antigos. E é exatamente durante a viagem para as duas Alemanhas que essa relação é posta a prova, quando ambos são confrontados pela notícia do suicídio de Klaus. irmão mais novo de Erika. Interpretado no filme por August Diehl, Klaus Mann seguiu a veia artística da família, participando de grupos teatrais com Erika antes da Guerra. Ele é mais conhecido por ter escrito o romance “Mephisto”, na qual acusava uma versão ficcionalizada do ator Gustaf Gründgens, ex-marido de Erika, de ter permanecido na Alemanha e colaborado com os nazistas. Rechaçado pelos Estados Unidos por sua homossexualidade e tendências comunistas, sofrendo de depressão e vício em opióides, e carregando o peso de uma relação conflituosa com seu pai – alega-se que Thomas Mann também reprimia seus próprios desejos homossexuais – Klaus e seu fim trágico podem ser entendidos como outra ferida aberta do pós-Guerra. E no contexto do filme, uma prova da futilidade dos esforços de Mann de curar essas feridas das Alemanhas e oferecer a elas um caminho em direção a um futuro ideal através da razão e da filosofia.

É claro que o filme toma liberdades narrativas em relação ao que realmente aconteceu. Erika não acompanhou o pai nesse tour pela Alemanha. E Mann não foi informado da morte de Klaus durante a viagem, já que os dois acontecimentos tiveram o intervalo de alguns meses. Essas mudanças servem não apenas para criar uma narrativa concisa, mas para melhor estabelecer o tema do filme. Que essas três pessoas, testemunhas essenciais daquela época e lugar, tão profundamente conectadas entre si, ainda que tão distintas, sejam igualmente incapazes de apaziguar seus sofrimentos compartilhados. E no caso de Mann em relação a seus filhos, de até mesmo reconhecer essas dores. Somente na conclusão da história, após ser confrontado por Erika, exausta das hipocrisias que presenciou, é que Mann se permite sofrer pela perda de seu filho. A performance de Zischler é fantástica exatamente por retratar o gênio literário de Mann, cuja verdade apenas se revela quando ele se encontra sem palavras. A rápida cena em que Mann sobe de elevador até o quarto de Erika, enquadrando o rosto do ator repleto de um medo reservado no olhar, é um grande exemplo disso. Assim como a cena final, em que pai e filha ficam sentados lado a lado escutando Bach numa capela em ruínas – uma metáfora para a Alemanha, ou a própria Europa.

Assim, é um pouquinho cômico que a abordagem sóbria e realista da direção de Pawlikowski retratando eventos verdadeiros possa trazer a memória de outro filme completamente diferente. Mesmo com o tradicional preto e branco que o diretor gosta de utilizar, criando sombras fortes e um contraste lúgubre nos atores e cenários, e também com uma linguagem cinematográfica despojada de grandes traquejos de câmera e montagem, não é impossível assistir a essa cena na capela e lembrar do colorido, artificial, fantasioso e exagerado “O Grande Hotel Budapeste”, de Wes Anderson. A última fala daquele filme chega inevitavelmente à mesma conclusão da cena final deste: “Era mesmo uma velha ruína encantadora. Mas eu nunca consegui vê-la de novo”.

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