Marcelo Kricheldorf
O filme “O Pagador de Promessas” (1962), dirigido por Anselmo Duarte, permanece como o ápice do prestígio internacional do cinema brasileiro. Único longa-metragem nacional a conquistar a Palma de Ouro em Cannes, a obra transpõe a peça de Dias Gomes para as telas com uma força lírica que disseca as contradições sociais e religiosas do Brasil. A narrativa não é apenas a jornada de um homem com uma cruz, mas um retrato da colisão entre a pureza do indivíduo e a corrupção das instituições.
A trama centra-se em Zé do Burro, um camponês cuja visão de mundo é pautada pela oralidade e pela devoção absoluta. Ao ver seu burro de estimação, Nicolau, à beira da morte, Zé recorre a um terreiro de candomblé, onde faz uma promessa que, se o animal se recuperar, ele dividirá suas terras com os pobres e carregará uma cruz de madeira de seu sítio até o altar da Igreja de Santa Bárbara, em Salvador. O cumprimento dessa promessa é o motor que move a narrativa, expondo a importância da palavra empenhada como um valor moral supremo para o homem do campo, em contraste com a fluidez ética da cidade.
O conflito central explode quando a fé sincera de Zé encontra a barreira do dogma institucional. O Padre Olavo, ao descobrir que a promessa foi feita em um terreiro, proíbe a entrada do fiel na igreja, classificando o ato como “feitiçaria” e superstição. Aqui, o filme tece uma crítica contundente à hipocrisia religiosa: a mesma instituição que prega a caridade e a humildade fecha suas portas para o humilde por puro preconceito teológico. O sincretismo, que para Zé é uma união natural de forças espirituais, para a Igreja é uma heresia que deve ser combatida, ignorando o sacrifício físico e a pureza de intenção do promesseiro.
Ao chegar em Salvador, Zé do Burro deixa de ser um indivíduo para se tornar um objeto de exploração. A luta entre a tradição e a modernidade é evidenciada pela forma como os diversos setores da sociedade urbana tentam cooptar sua imagem. A imprensa sensacionalista o transforma em um “líder místico” para vender jornais; políticos tentam usá-lo como símbolo de agitação política ou revolta agrária; e até as autoridades vêm nele uma ameaça à ordem pública. Zé, que só deseja cumprir seu acordo espiritual, vê-se esmagado por uma estrutura moderna que não compreende sua lógica de honra e devoção.
A relação entre o homem e a natureza é o que humaniza a obra. O amor de Zé por Nicolau é o que desencadeia a tragédia, mostrando que, no universo rural, o animal não é apenas ferramenta, mas parte da família e da existência. A busca por justiça e redenção atinge seu clímax em um desfecho irônico: impedido de entrar na igreja em vida, Zé é assassinado durante um confronto policial na frente do templo. Seu corpo é colocado sobre a própria cruz pelos populares, que invadem a igreja à força para cumprir a promessa por ele.
Por fim, O Pagador de Promessas é um estudo sobre a solidão do homem íntegro em um mundo movido por aparências e dogmas.
Ficha Técnica de O Pagador de Promessas (1962)
- Título Original: O Pagador de Promessas
- Direção: Anselmo Duarte
- Roteiro: Anselmo Duarte, baseado na peça de teatro de Dias Gomes
- Elenco:
- Leonardo Villar como Zé do Burro
- Glória Menezes como Rosa
- Norma Bengell como Marli
- Dionísio Azevedo como Padre Olavo
- Geraldo Del Rey como Bonitão
- Othon Bastos como Repórter
- Antônio Pitanga como Mestre Coca
- Roberto Ferreira como Dedé Cospe-Rima
- Gilberto Marques como Galego
- Gênero: Drama
- Duração: 91 minutos
- País de Origem: Brasil
- Idioma: Português
- Orçamento: não disponível
- Estreia: 1962 (Brasil)
- Distribuidora: Cinedistri
- Prêmios: Palma de Ouro no Festival de Cannes (1962)
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Parabéns pelo artigo meu nobre
Uma obra de arte do nosso Cinema Nacional.
Parabéns pelo Artigo.