Marcelo Kricheldorf
O lançamento de Os Cafajestes, em 1962, não apenas marcou a estreia de Ruy Guerra no Brasil, mas estabeleceu uma nova gramática para o cinema nacional. Ao se afastar do tom documental ou puramente nacionalista de outros braços do Cinema Novo, Guerra lançou um olhar clínico e implacável sobre a urbanidade carioca, revelando que sob o sol das praias residia um profundo abismo moral.
O enredo, aparentemente simples, acompanha a trajetória de Jandir e Vavá. A dupla personifica o arquétipo do “playboy” desocupado, cuja existência é pautada pelo tédio e pela ausência de ética. O plano de fotografar a amante do tio de Vavá em uma praia deserta para fins de chantagem é o fio condutor que expõe o caráter predatório dos protagonistas. A narrativa não busca a redenção; pelo contrário, ela utiliza o tempo dilatado e a cinematografia crua para aprisionar o espectador na angústia daquela situação sórdida.
O filme opera uma demolição simbólica da burguesia. Os personagens de Ruy Guerra são seres desprovidos de projeto de nação ou de consciência social. Eles representam uma classe média que, embora possua acesso ao consumo, é espiritualmente vazia. A busca por identidade se dissolve no hedonismo: o “ser” é substituído pelo “ter” e pelo “poder dominar”. Não há raízes ou propósitos; os personagens vagam pelo Rio de Janeiro como fantasmas de uma modernidade que falhou em humanizá-los.
Um dos pontos mais contundentes da obra é a exposição visceral do machismo. A relação entre homem e mulher em Os Cafajestes é estritamente utilitária. A figura feminina, representada por Leda, é despojada de sua subjetividade e reduzida à carne, ao objeto de troca. O famoso nu frontal — o primeiro do cinema brasileiro — não carrega o signo da libertação sexual, mas sim da violação e da perda de autonomia. Ao filmar essa nudez com uma lente fria e distante, Ruy Guerra não celebra o corpo, mas denuncia a agressão do olhar masculino que enxerga a mulher apenas como moeda de troca.
A violência no filme é onipresente, manifestando-se menos por golpes físicos e mais por uma agressividade psicológica constante. A câmera de Ruy Guerra, influenciada pela Nouvelle Vague, é inquieta e invasiva, criando um desconforto que reflete a natureza do filme. A agressividade reside na falta de empatia, no riso cínico diante da dor alheia e na forma como o espaço público é ocupado como um território de caça.
Os Cafajestes permanece como um documento perturbador sobre a falência dos valores humanos em uma sociedade que prioriza a aparência e o status. Ao retratar o “cafajestismo” não como charme, mas como patologia social, Ruy Guerra antecipou crises de identidade que ainda ecoam no Brasil contemporâneo. É uma obra que não oferece conforto, mas que obriga o espectador a encarar a feiura escondida sob a estética da modernidade.
Ficha Técnica de Os Cafajestes (1962)
- Título Original: Os Cafajestes
- Direção: Ruy Guerra
- Roteiro: Ruy Guerra e Miguel Torres
- Elenco:
- Jece Valadão – Jandir
- Norma Bengell – Leda
- Daniel Filho – Vavá
- Hugo Carvana
- Lucy de Carvalho – Vilma
- Glauce Rocha
- Germana Delamare
- Fátima Sommer
- Aline Silvia
- Mariana Ferraz
- Gênero: Drama
- Duração: 100 minutos
- País de Origem: Brasil
- Idioma: Português
- Estreia: 1962 (Brasil)
- Distribuidora: Herbert Richers
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