Durante muitos anos, acreditamos na frase repetida mil vezes, de que aqueles que não aprendem com a história estão condenados a repeti-la. Até que o sábio ex-presidente uruguaio José Mujica, morto aos quase 90, antes que a senilidade o alcançasse, corrigiu: “as pessoas só aprendem com suas próprias histórias”.
Frases de Mujica abundam nas redes sociais. Ele nunca cansou de dar entrevistas. Guardando uma coerência rara e geralmente espalhando com generosidade seu humanismo com brilho. Parte de sua vida está no documentário “El Pepe, uma vida suprema”, dirigido por Emir Kusturica (Netflix).
Certamente dirigiu seu velho fusca para um lugar onde hoje estão raríssimos seres humanos, sem mencionar presidentes, que passaram pela vida incorruptíveis e blindados contra a soberba.
É uma doença quase inerente ao poder, a soberba, batizada pelos gregos, há milênios, de hubris. Como a craca dos barcos, ela gruda nos poderosos. No caso do das embarcações, precisam ser submetidas a limpezas regulares. Já no caso dos poderosos, as cracas podem ser bastante sutis. Algumas criam relações simbióticas, como os pássaros que limpam as carapaças dos grandes ruminantes.
A escritora Barbara Tuchman, vencedora de dois prêmios Pulitzer, publicou “A Marcha da Insensatez”, depois do desastre da Guerra do Vietnã, com estudos de casos, sobre como a soberba infecta a cabeça dos poderosos desde a Guerra de Troia até Kennedy.
Sinais de que comandantes e governantes estão se encaminhando, e levando com eles seus povos, para o desastre, são abundantes. Porém, encantados pelos seus próprios sucessos, começam a acreditar mais nas próprias convicções, do que em diversos alertas que aparecem claramente ao senso comum.
É o célebre caso do Cavalo de Tróia, quando muitos alertam o rei da cidade de que não se deve aceitar um presente do inimigo, no caso presente de grego. Mas o rei, muito envaidecido e aconselhado pelos seus puxa-sacos, decidiu abrir as portas da sua fortaleza para o imenso brinde.
Resultado: da barriga do grande cavalo oco desembarcaram silenciosamente os guerreiros de Ulisses e massacraram os troianos. Aconteceu também do Montezuma, os rei dos Aztecas do México. Também recebeu os presentes do espanhol Cortez e perdeu seu império.
Mas o vírus da soberba se disfarça de muitas formas e a vaidade humana é o pecado preferido do demônio. Conta a autora Tuchman que um dos papas lá nos 1500s, teria comentado “de tanto ser bajulado, meus ouvidos se desacostumaram a receber críticas”. Ele estava sendo alertado do nascimento da reforma protestante, que varreu o mundo nos séculos seguintes.
Os sinais de que no Brasil corremos seriíssimo perigo de viver uma nova fase de obscurantismo não vêm de bruxas nem das cartomantes. Estão em pesquisas de opinião e vem de pensadores que habitualmente apoiam o atual governante.
Sob pena de conduzir as eleições para um replay de 2018, roga-se ao condutor máximo do país, não que se livre das parasitas, essas já com raízes fincadas no velho tronco, mas que deixe um pouco o círculo de seus cardeais e desça ao sábio chão de suas origens.
Calejado eleitor, traumatizado por seguidas derrotas e reviravoltas da política, subscreve com ínfimas esperanças de que o espírito de Mujica se infiltre na muralha dos aduladores e sempre eficientes (e interessados) lustradores do ego alheio.
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