Análise: Liga da Justiça de Zack Snyder

Critica de Filmes Quadrinhos, Gibi, HQ

Denúncias, regravações e um movimento criado por fãs em busca do lançamento da versão original, eu estava lá. Acompanhei enquanto tudo isso se desenrolava em um período no qual estávamos todos confinados atrás de um monitor em nossas casas.
O que temos aqui não se trata de uma mera versão do diretor, e sim do resultado de uma longa batalha em prol da visão de todos os envolvidos, e de uma comunidade que desejava ver aquilo que foi prometido.
Nesta semana, completam-se cinco anos desde o lançamento de Liga da Justiça de Zack Snyder. Vamos revisitar o longa, sua produção turbulenta e seu legado para o gênero de super-heróis.

Nasce um novo universo

Vamos voltar um pouco no tempo, lá para 2013. Com o sucesso da Marvel, que lançava Os Vingadores, seu primeiro grande crossover nos cinemas um ano antes, consolidando seu universo cinematográfico, a Warner não queria perder tempo e decidiu aproveitar os heróis da DC Comics para fazer o mesmo. Logo após a conclusão da trilogia O Cavaleiro das Trevas, estrelada por Christian Bale e dirigida por Christopher Nolan, trabalhos se iniciaram em um novo filme do Superman, que seria responsável por abrir esse universo, após o fracasso de Lanterna Verde, estrelado por Ryan Reynolds, em 2011.

Henry Cavill como Superman em Homem de Aço (Foto: Reprodução/Warner Bros.)

Assim, em 2013, estreia Homem de Aço, dirigido por Zack Snyder e estrelado por Henry Cavill no papel de Superman/Clark Kent, e Amy Adams como a jornalista Lois Lane. O objetivo? Muito simples: ser o primeiro passo na construção de um universo cinematográfico.

Snyder já era consagrado internamente por seu trabalho de direção em Watchmen, baseado na obra de Alan Moore, que muitos consideravam impossível de ser adaptada para a tela grande. O diretor também era muito conhecido por seu estilo visual, que utiliza uma paleta de cores escuras e saturadas, o uso intenso de câmera lenta e visuais hiperestilizados, proporcionando sempre uma sensação de escala épica, até mesmo nas menores cenas.

No fim das contas, a aposta vingou. Com um orçamento de US$ 225 milhões, o longa faturou US$ 670.145.518 em bilheteria ao redor do mundo, apesar das críticas mistas por parte da imprensa e do público. Muitos criticaram a abordagem mais sombria do enredo, principalmente no personagem do Superman, que aqui não é o clássico escoteiro americano, e sim uma espécie de Deus deslocado. Por outro lado, houve quem amasse essa nova abordagem, preferindo um tom mais sério e dramático em vez das piadas e da leveza do MCU.

De qualquer forma, a Warner não perdeu tempo e já anunciou não apenas uma sequência, mas todo um panorama de lançamentos para o seu novo universo cinematográfico.

Você sangra?

Em vez de uma sequência direta, o filme seguinte seria Batman v Superman: A Origem da Justiça, um anúncio que abalou multidões de fãs mundo afora, que esperavam há décadas por esse embate épico em live-action nos cinemas.
Dessa vez, Ben Affleck daria vida ao Homem-Morcego, com Jeremy Irons como Alfred, Jesse Eisenberg como Lex Luthor e Gal Gadot como Diana/Mulher-Maravilha.

E a Warner não poupou esforços em deixar claro que não seria apenas um filme, mas sim um evento. Com pôsteres, trailers, parcerias, promoções e ativações, não dava para fugir de Batman v Superman, que se tornou um dos filmes mais aguardados de 2016. Nos bastidores, o trabalho já havia se iniciado em sua sequência: o filme de super-heróis para acabar com todos os filmes de super-heróis — Liga da Justiça.

O embate entre Batman e Superman marca a tensão e os conflitos centrais do universo construído por Zack Snyder (Foto: Reprodução/Warner Bros.)

Entretanto, com um orçamento entre US$ 250 milhões e US$ 300 milhões, o filme terminou sua exibição com cerca de US$ 873–874 milhões na bilheteria mundial, um resultado sólido, mas ainda abaixo do bilhão almejado pela Warner, amargando 28% de aprovação da crítica no agregador Rotten Tomatoes.

Críticos consideraram o filme confuso, com um roteiro mais interessado em estabelecer um universo cinematográfico do que em contar sua própria história. Fãs, por outro lado, ficaram mais divididos, com boa parte das críticas direcionadas ao Batman de Ben Affleck, que mata e até marca criminosos para serem executados no presídio. E, claro, grande parte das críticas recaiu sobre o diretor Zack Snyder, com muitos questionando sua visão a longo prazo para esses personagens.

Josstice League

Internamente, os executivos da Warner começavam a perder a confiança na visão de Zack Snyder, que também comandaria Liga da Justiça, e buscavam maneiras de guiar o projeto para um tom mais próximo ao da Marvel e de Os Vingadores. Sobrecarregado e cada vez mais pressionado pelos produtores durante as filmagens, Snyder sofreu uma tragédia em sua vida pessoal, afastando-se de vez da produção de Liga da Justiça.

A Warner então trouxe Joss Whedon, diretor responsável por Os Vingadores e Vingadores: Era de Ultron, para finalizar o projeto e refilmar partes do material de Snyder. O que se seguiu foi a formação de um verdadeiro “Frankenstein” cinematográfico, repleto de remendos e alterações na visão original, comprometendo o resultado final.

formação da equipe em Liga da Justiça 2017 (Foto: Reprodução/Warner Bros.)

Lançado em novembro de 2017, e com adições ao elenco como Ray Fisher no papel de Victor Stone/Cyborg, Jason Momoa como Arthur Curry/Aquaman, Ezra Miller como Barry Allen/Flash e J.K. Simmons como Jim Gordon, Liga da Justiça estreou para um público, em grande parte, alheio às polêmicas por trás das câmeras, impulsionado por uma massiva campanha de hype.

Com um orçamento de produção estimado em cerca de US$ 300 milhões, inflado por extensas refilmagens, o filme arrecadou aproximadamente US$ 657–661 milhões mundialmente, não gerando sequer lucro, segundo diversas fontes internas da Warner, e amargando 39% de aprovação no Rotten Tomatoes.

Pérolas? Esse filme é mato quando o assunto são cenas e adições bizarras, resultado direto dos maneirismos de Joss Whedon. Entre elas: o antagonista principal com um visual refeito e claramente inacabado; a inserção de uma família em perigo no terceiro ato; piadas desnecessárias; o corte quase completo da participação de Ray Fisher como Cyborg na narrativa; e, claro, o maior destaque vai para o CGI tentando esconder o bigode de Henry Cavill como Superman. Isso porque, durante as refilmagens, Cavill já estava filmando Missão: Impossível – Efeito Fallout, no qual seu personagem possui um bigode — e, por questões contratuais, ele não podia removê-lo.

ReleaseTheSnyderCut

Em pouco tempo, o sonho de um universo cinematográfico da DC Comics ia por água abaixo. Os produtores da Warner lavaram as mãos do fracasso de Liga da Justiça, com os projetos seguintes possuindo pouca ou nenhuma ligação com os anteriores, encabeçados por Zack Snyder. Mas um pequeno movimento começaria a surgir em alguns cantos da internet, em busca da visão original de Liga da Justiça, e não da versão desconjuntada de Joss Whedon.

Com a hashtag #ReleaseTheSnyderCut, fãs começaram uma campanha, inicialmente pequena, para ver a versão de Zack Snyder. Entretanto, o movimento foi ganhando força, com o apoio do próprio diretor, que passou a compartilhar fotos e vídeos de sua versão, empolgando cada vez mais os fãs. O movimento se tornou tão massivo que chegou ao ponto de ter aviões com faixas do movimento sobrevoando os estúdios da Warner, que continuava a insistir que tal versão não existia.

Em 2020, durante a pandemia mundial de coronavírus, a Warner anunciou o HBO Max, seu serviço de streaming para bater de frente com a Netflix. Inicialmente, apesar de contar com um amplo catálogo de clássicos do estúdio, o serviço chegaria sem um grande conteúdo original de peso.

Então surgiu a pergunta: por que não lançar uma versão de um filme que supostamente não existia, mas que estava ali, praticamente completo, e que todos os fãs ansiavam assistir?

Pôster oficial de Liga da Justiça de Zack Snyder (Foto: Reprodução/Warner Bros.)

Hallelujah

Lançado em 2021, diretamente para o HBO Max, Liga da Justiça de Zack Snyder acompanha Bruce Wayne/Batman, interpretado por Ben Affleck, embarcando em uma missão para reunir uma equipe de meta-humanos e defender a humanidade de uma ameaça vinda das estrelas.

Lobo da Estepe, antagonista do longa, está em busca das Caixas Maternas para destruir o planeta Terra e ser libertado de seu exílio. Com a morte do Superman, a equipe liderada por Batman terá que enfrentar essa nova ameaça, enquanto algo ainda maior age por trás das cortinas: Darkseid.

Vilão Darkside em Liga da Justiça de Zack Snyder (Foto: Reprodução/Warner Bros.)

Eu acho quase inacreditável que ambas as versões, de Whedon e Snyder, tenham praticamente a mesma fundação, mas sejam completamente diferentes em execução. Com massivas quatro horas de duração, o longa toma seu tempo para apresentar a nova ameaça, o estado do mundo e, principalmente, seus personagens. O destaque vai para Cyborg, interpretado por Ray Fisher e praticamente excluído da versão anterior. Aqui, nas palavras do próprio Snyder, ele é o coração do longa, sendo o centro do gancho emocional da história.

Até coisas que muitos consideravam impossíveis de se redimir aqui ganham uma segunda chance. Lobo da Estepe, antagonista do longa, não apenas ganha um novo visual, mas também uma motivação, tendo que conquistar planetas para poder voltar para sua casa, completamente diferente da criatura que só destrói “por quê sim” na versão anterior.

Para mim, o melhor, e mais trágico, aspecto do longa está no fato de que Snyder e sua equipe estavam cientes das críticas direcionadas aos filmes anteriores e determinados a elevar seus personagens a lugares que buscassem satisfazer os fãs. Pegue o Superman, por exemplo: seu retorno à vida é tratado de qualquer jeito na versão anterior, com destaque para um Batman fazendo piadas na hora errada. Aqui, não apenas isso é tratado como uma necessidade conjunta, como também vemos o personagem utilizar seu traje preto, vindo das HQs, transmitindo uma aura de esperança e evoluindo para um lugar mais próximo do clássico escoteiro americano.

Batman, acredite se quiser, o alívio cômico da versão anterior, aqui é mostrado remodelado. Impactado pela morte do Superman, Bruce Wayne precisa inspirar e liderar uma equipe para salvar um mundo no qual ele mesmo não acreditava, mas no qual agora consegue ver esperança nas pessoas.

A Liga da Justiça entra em ação em Liga da Justiça de Zack Snyder (Foto: Reprodução/Warner Bros.)

No fim, é a esperança que move este longa. Em uma época na qual estávamos confinados em nossas casas, ver o lançamento desse filme pareceu inacreditável, ver um diretor e sua equipe tendo a justiça que mereciam, uma comunidade unida em um mundo dividido.

Temos aqui não apenas um filme, mas um movimento que marcou a cultura pop e o cinema para sempre.
Sim, o universo cinematográfico da DC recomeçou, sob a liderança de James Gunn, e eu mal posso esperar para ver o que esse novo universo reserva para o futuro, com Supergirl e Cara de Barro chegando ainda neste ano de 2026.
Mas não posso deixar de revisitar o universo anterior com carinho, refletindo sobre seus erros e acertos, e feliz por ter visto a justiça sendo feita.

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