Capoeira como ferramenta de transformação: a trajetória de Mestre Heitor nas comunidades do Rio

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## Educador social e líder do Grupo Cumbé, ele atua em projetos comunitários e nos CRAS, onde utiliza a capoeira como instrumento de inclusão e desenvolvimento humano.

A capoeira, por si só, já carrega uma história de resistência e pertencimento. Para Mestre Heitor, essa origem não é apenas simbólica, é prática.

Ao longo de sua trajetória, ele nunca fez distinção de público ou território. A aula é a mesma, independentemente do CEP. O que muda, segundo ele, são as histórias que chegam até a roda.

“Na mesma aula que eu explico para alguém da Zona Sul, eu ensino para alguém do subúrbio. No fim, somos todos uma só comunidade.”

Essa percepção acompanha seu trabalho há anos, mas ganhou novo alcance em 2021, quando passou a atuar também nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), a partir de um convite da Prefeitura. Desde então, mantém atividades regulares nesses espaços.

Nos CRAS, a capoeira assume um papel que vai além da prática corporal. As aulas acontecem em formato de oficinas, com foco na cultura, na convivência e na construção de vínculos. Em outros ambientes, o ensino segue uma lógica mais contínua, com formação técnica e progressão por graduação. Em ambos os casos, o ponto de partida é o mesmo: formar pessoas.

“A capoeira é uma ferramenta muito forte de socialização. Muitas vezes, o mestre não educa só dentro da prática, mas também para a vida.”

Os efeitos aparecem no dia a dia. Há alunos que passam a esperar pela aula como um dos principais momentos da semana. Outros encontram ali um espaço de escuta, disciplina e reconhecimento. A mudança, segundo ele, é perceptível no comportamento e na autoestima.

Entre as histórias que marcaram sua caminhada, uma em especial resume esse impacto. Um aluno diagnosticado com autismo, que chegou ainda criança, com dificuldades de interação. Hoje, aos 16 anos, participa das rodas, toca instrumentos, canta e também atua como baterista na igreja.

“Esse é um dos maiores resultados que já vivi como mestre.”

A própria trajetória de Mestre Heitor também é atravessada por episódios de superação. Ele sobreviveu a situações graves, como ferimentos por arma de fogo, e seguiu em frente. A decisão de continuar, segundo ele, nunca esteve em dúvida.

“Continuo porque sei da capacidade que a capoeira tem de ajudar as pessoas.”

Mais do que técnica, o que orienta seu trabalho é uma ideia de formação baseada em valores. Para ele, não faz sentido desenvolver habilidades sem trabalhar postura.

Respeito, gratidão, fidelidade e responsabilidade são princípios recorrentes em suas aulas. A referência não está apenas na roda, mas na forma como cada aluno se posiciona fora dela.

A base desse pensamento dialoga com o conceito de coletividade e a noção de que o desenvolvimento individual passa, necessariamente, pelo outro.

À frente do Grupo Cumbé, ele segue ampliando o alcance do trabalho, com projetos, eventos e formação de novos alunos. A proposta é crescer, mas mantendo a essência.

O grupo, fundado por Mestre PC, carrega raízes ligadas à cultura popular e à tradição. Para Mestre Heitor, preservar esse legado é parte do compromisso.

Mais do que ensinar capoeira, trata-se de sustentar um espaço de acolhimento e continuidade.

“Eu me dediquei, me dedico e continuarei acreditando que a capoeira é para todos. Um lugar de axé, leveza e harmonia.”

No fim, a trajetória dele ajuda a traduzir algo que nem sempre é visível à primeira vista: a capoeira pode ser, ao mesmo tempo, prática cultural, ferramenta educativa e ponto de virada na vida de quem atravessa a roda.

Associação Cultural Cumbé Capoeira – Insta: heitor.educador

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