Solidão Conectada

Comportamento Temáticas Sociais

Por Roberto T. G. Rodrigues

A evolução nos trouxe possibilidades que, há poucas décadas, pareceriam parte de uma história de ficção científica. Sempre fui favorável ao progresso e à ideia de compartilhar conhecimento para que outras pessoas também possam avançar. No entanto, quando observo algumas mudanças ocorridas ao longo dos anos, tenho a impressão de que nem todo avanço tecnológico representou uma evolução nas relações humanas.

Hoje, se uma tempestade de granizo atingir uma cidade do outro lado do mundo, provavelmente saberemos em poucos minutos. Notícias, imagens e comentários atravessam continentes quase instantaneamente — quando não são contaminados pelas notícias falsas, assunto que merece outro artigo. Temos acesso a uma quantidade extraordinária de informações, mas isso não significa que estejamos verdadeiramente próximos uns dos outros.

A questão está justamente nessa contradição. Quanto mais conectados nos sentimos ao mundo, mais corremos o risco de nos distanciar emocionalmente das pessoas que estão ao nosso lado. Aos poucos, transferimos para os meios digitais quase todas as áreas da vida: consultas médicas, compras, estudos, trabalho, entretenimento e relacionamentos. Não podemos responsabilizar apenas a inteligência artificial ou os aparelhos por essa transformação. Fomos nós que entregamos parte de nossa atenção, de nosso tempo e até de nossa liberdade em troca de conveniência.

Basta observar as ruas, os trens e os espaços de convivência. Muitas pessoas caminham olhando para o celular, atravessam estações sem perceber quem passa ao redor e permanecem com os olhos presos à tela durante todo o trajeto. Também é comum encontrar grupos reunidos em shoppings, restaurantes ou eventos sociais nos quais quase ninguém conversa. Dividem a mesma mesa, mas cada um permanece isolado em seu próprio aparelho. O celular assume, então, o papel daquela “Bengala Moderna” sobre a qual já escrevi: uma ferramenta criada para nos auxiliar, mas que pode acabar sustentando uma dependência.

Essa ausência de interação também alcança as famílias. Encontros que antes faziam parte da rotina, como o almoço de domingo, um passeio em grupo ou um piquenique, parecem cada vez mais difíceis de organizar. É claro que a vida mudou, as cidades cresceram e as rotinas ficaram mais exigentes. Ainda assim, não acredito que a falta de tempo explique tudo. Em São Paulo, vejo diariamente pessoas dividindo vagões, calçadas e estabelecimentos lotados, mas habitando pequenos casulos de indiferença. Existe proximidade física, porém quase nenhum encontro verdadeiro.

As relações também parecem sofrer com a disputa permanente por atenção. Enquanto conversamos com alguém, chegam mensagens, vídeos, notícias e notificações. O outro precisa competir com o mundo inteiro para ser ouvido. Nesse ambiente, torna-se difícil prestar atenção com profundidade, perceber uma mudança no tom de voz ou simplesmente permanecer em silêncio ao lado de alguém sem sentir a necessidade de consultar uma tela.

Quando os vínculos se enfraquecem, podem crescer a ansiedade, o estresse e a sensação de vazio. Muitas vezes dizemos que não encontramos amigos ou familiares porque estamos cansados ou sem tempo. Em alguns casos, isso é verdade; em outros, talvez estejamos nos acostumando tanto ao isolamento que qualquer encontro começa a parecer trabalhoso. A conversa exige atenção, paciência e disponibilidade, enquanto a tela permite entrar, sair ou ignorar quando desejarmos.

Não proponho abandonar a tecnologia, porque ela faz parte da vida e oferece benefícios inegáveis. O desafio é impedir que a conexão digital ocupe o espaço das relações que deveria facilitar. Talvez seja necessário recuperar hábitos simples: guardar o celular durante uma refeição, ouvir sem interromper, visitar alguém ou aceitar um convite mesmo quando o sofá parecer mais confortável.

Podemos saber em segundos o que aconteceu do outro lado do planeta e, ainda assim, ignorar como se sente a pessoa sentada ao nosso lado. Essa é a solidão conectada: estar cercado de contatos, mensagens e informações, mas distante de vínculos reais. A tecnologia continuará avançando. Cabe a nós decidir se nossas relações avançarão com ela.

Sobre o autor
Roberto T. G. Rodrigues
é escritor, poeta e criador do universo A Era de Ouro da Magia. Também é autor das obras A Bê Cê da Poesia e Corpos Abstratos, transitando entre fantasia, poesia e ficção contemporânea.
Instagram: @robertotgrodrigues

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