ASSEXYBILIDADE: QUANDO O DESEJO TAMBÉM É UM ATO DE RESISTÊNCIA

Critica de Filmes Documentário PCD Representatividade

Na última segunda-feira, tive o prazer, no sentido completo e literal da palavra, de assistir ao documentário Assexybilidade, exibido pela Rede Globo. Mais do que uma produção sobre sexualidade, acredito que estamos diante de um verdadeiro ato de resistência, de orgulho e, principalmente, de necessidade.

Ao ouvir cada um dos relatos apresentados no documentário, senti que existia ali uma espécie de grito. Um grito que, muitas vezes, pode parecer escandaloso, desconfortável ou até mesmo ser mal interpretado por parte da sociedade, mas que é extremamente necessário.

A sexualidade, por si só, ainda é um tabu para muitas pessoas, mesmo vivendo em uma sociedade cercada de informação. Falar sobre desejo, relacionamentos, sexo, orientação sexual e intimidade ainda provoca constrangimento. Imagine, então, o tamanho desse tabu quando o assunto envolve pessoas com deficiência.

É justamente nesse território que Assexybilidade decide entrar.

E, para mim, é preciso reconhecer a coragem das pessoas que participaram do documentário. Coragem para falar abertamente sobre suas experiências, seus desejos, seus relacionamentos e a maneira como compreendem e vivenciam a própria sexualidade.

Confesso que assistir a esse conteúdo na televisão aberta me provocou uma sensação muito particular. Senti orgulho e, ao mesmo tempo, uma espécie de segurança ao perceber que histórias como essas estavam chegando a um público muito maior.

Fiquei imaginando a reação de tantas famílias ao se depararem com pessoas com síndrome de Down, pessoas cadeirantes, pessoas com diferentes deficiências físicas, pessoas que utilizam bengalas e pessoas com nanismo falando abertamente sobre amor, desejo, relacionamentos e sexualidade.

E acredito que esse é justamente um dos grandes méritos da produção: mostrar que a deficiência não elimina nenhuma dessas dimensões da existência humana.

Existe uma tendência histórica de enxergar a pessoa com deficiência apenas a partir daquilo que ela não pode fazer. Muitas vezes, ela é infantilizada, tratada com excesso de proteção ou colocada em uma posição em que os outros acreditam saber o que é melhor para ela.

Mas onde fica o desejo?

Onde fica a autonomia?

Onde fica o direito de escolher quem amar, com quem se relacionar e como viver a própria sexualidade?

Assexybilidade não tem medo de fazer essas perguntas.

E, mais do que isso, não tem medo de apresentar respostas que podem incomodar.

O documentário aborda a sexualidade de maneira bastante explícita. Os participantes falam sobre experiências íntimas, relações sexuais, descobertas pessoais e diferentes formas de compreender o próprio desejo. E acredito que essa escolha de linguagem seja fundamental para a proposta da obra.

Não seria suficiente falar sobre pessoas com deficiência de uma maneira delicada, distante ou excessivamente protegida. Era necessário permitir que elas próprias falassem sobre suas experiências.

E isso faz toda a diferença.

Temos pessoas com diferentes tipos de deficiência contando suas histórias e também pessoas descobrindo diferentes possibilidades de identidade e orientação sexual. Pessoas que se descobriram homossexuais, bissexuais e que passaram a compreender melhor a própria identidade a partir das experiências afetivas e sexuais.

Como traduzir tudo isso para uma narrativa audiovisual?

A resposta encontrada pelo documentário foi justamente não esconder essas experiências.

A direção de Daniel Gonçalves, que também é uma pessoa com deficiência, ganha uma dimensão ainda mais significativa nesse contexto. Existe ali uma espécie de porta-voz que compreende, a partir da própria experiência, a necessidade de permitir que essas pessoas tenham espaço para falar.

E falar sem medo.

Falar sem precisar pedir autorização.

Falar sobre sexo, desejo e intimidade sem precisar se justificar.

Porque as amarras sociais já são numerosas para as pessoas com deficiência. Muitas vezes, existe uma tentativa constante de determinar como elas devem pensar, agir, se comportar e até mesmo se relacionar.

Assexybilidade rompe com essas amarras.

O documentário mostra algo que talvez muitas pessoas saibam racionalmente, mas ainda tenham dificuldade de aceitar emocionalmente: pessoas com deficiência também desejam, também se apaixonam, também sentem atração, também têm fantasias, também fazem escolhas e também querem viver plenamente suas relações.

E existem diferentes configurações de relacionamento.

Pode existir um casal em que uma pessoa tenha deficiência e a outra não.

Pode existir um casal em que as duas pessoas tenham deficiência.

Pode existir uma pessoa com deficiência que se relacione com alguém do mesmo sexo.

Pode existir uma pessoa com deficiência bissexual.

Pode existir uma infinidade de experiências, porque a sexualidade humana nunca foi uma coisa única e uniforme.

O amor encontra diferentes formas de existir.

E talvez um dos aspectos mais interessantes do documentário seja justamente acompanhar pessoas descobrindo a si mesmas por meio da sexualidade.

Alguns relatos mostram pessoas que estão experimentando situações novas, conhecendo outras possibilidades e, principalmente, permitindo-se viver experiências que talvez nunca tivessem tido a oportunidade de experimentar.

Existe algo muito importante nisso.

Quando uma pessoa decide se permitir conhecer alguém com deficiência, por exemplo, ela também pode descobrir que os próprios preconceitos eram construídos sobre uma imagem limitada daquela pessoa.

É como abrir uma porta para um mundo que sempre esteve ali, mas que nunca havia sido verdadeiramente observado.

E é nesse momento que o documentário ultrapassa a questão da sexualidade e passa a falar também sobre capacitismo.

Porque o problema não está apenas na dificuldade de uma pessoa com deficiência encontrar alguém. Existe também uma sociedade que muitas vezes não consegue enxergá-la como alguém que pode despertar desejo.

Existe um olhar de piedade.

Existe um olhar de proteção excessiva.

Existe o estranhamento.

Existe a rejeição.

E existe a dificuldade de aceitar que uma pessoa com deficiência pode ser, sim, sexualmente desejável.

É justamente esse olhar que o documentário confronta.

E talvez por isso algumas cenas e alguns relatos possam incomodar.

Mas acredito que o incômodo seja proposital.

Nem sempre uma obra precisa nos deixar confortáveis.

Às vezes, precisamos ser incomodados para perceber aquilo que não queríamos enxergar.

O choque pode provocar reflexão.

A reflexão pode gerar empatia.

E a empatia pode abrir espaço para uma nova perspectiva.

É isso que senti ao assistir a Assexybilidade.

Para mim, o documentário é um ato de resistência.

É um grande chacoalhão, no melhor sentido possível, para uma sociedade que ainda precisa aprender a enxergar as pessoas com deficiência para além de suas limitações.

Não apenas como pessoas que precisam de acessibilidade.

Não apenas como pessoas que precisam de cuidados.

Não apenas como pessoas que precisam de inclusão.

Mas como pessoas completas.

Pessoas que amam.

Pessoas que desejam.

Pessoas que escolhem.

Pessoas que erram.

Pessoas que se descobrem.

Pessoas que podem ter relacionamentos.

Pessoas que podem sentir prazer.

Pessoas que podem ser desejadas.

Pessoas que têm o direito de viver sua sexualidade.

E acredito que essa seja uma das mensagens mais importantes deixadas pelo documentário: a pessoa com deficiência não precisa ser vista com piedade; precisa ser vista com humanidade.

Talvez o que mais me tenha marcado seja justamente perceber como ainda existe um desconforto social quando uma pessoa com deficiência demonstra personalidade, autonomia, desejo e sexualidade.

Esse desconforto diz muito mais sobre a sociedade do que sobre a pessoa que está falando.

Por isso considero tão importante a existência de uma produção como Assexybilidade. Ela não tenta esconder o que pode incomodar. Pelo contrário: coloca essas questões diante do espectador e permite que cada um confronte seus próprios preconceitos.

E, no final, talvez seja justamente esse o verdadeiro poder do audiovisual.

Não apenas contar histórias.

Mas nos fazer enxergar aquilo que, muitas vezes, escolhemos não ver.

Assexybilidade incomoda.

E ainda bem que incomoda.

Porque, algumas vezes, é desse incômodo que nasce a reflexão. Da reflexão pode nascer a empatia. E da empatia pode surgir um novo olhar.

Um olhar com menos piedade.

Com menos rejeição.

Com menos preconceito.

E com muito mais oportunidades para que cada pessoa possa simplesmente ser aquilo que é.

Uma pessoa.

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