Morro dos Mortos foi uma obra que me surpreendeu positivamente. Antes de assistir, eu esperava encontrar uma história voltada principalmente para uma crítica social relacionada à criminalidade e à desigualdade social. E, de fato, esses elementos estão presentes na proposta do curta. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a maneira como a narrativa conduz o espectador até um desfecho que, para mim, demonstra uma grande criatividade e ousadia por parte do diretor Janderson Rodrigues.
A história acompanha Bento, um homem que passou dez anos preso e que, ao recuperar a liberdade, precisa enfrentar não apenas as consequências do que fez no passado, mas também os fantasmas que continuam presentes em sua vida.
E é justamente essa ideia que considero fundamental para compreender a obra: sair da prisão não significa necessariamente estar livre do passado.
Bento carrega consigo uma história marcada pela criminalidade. Ele fez parte de uma quadrilha responsável por executar pessoas e, depois de cumprir sua pena, precisa lidar com aquilo que ficou para trás.
O curta utiliza esse passado como uma espécie de espelho para discutir as consequências das escolhas.
A criminalidade não aparece apenas como um ato isolado, restrito ao momento em que um crime é cometido. Ela deixa marcas. Afeta quem pratica, quem sofre e também aqueles que permanecem ao redor dessas situações.
Nesse sentido, Bento é um personagem atormentado pelo próprio passado. Existe nele uma espécie de prisão que ultrapassa as paredes da penitenciária.
Durante dez anos, ele esteve privado da liberdade física. Mas, quando deixa a prisão, começa a perceber que ainda está preso a outra coisa: às lembranças, às consequências e aos fantasmas daquilo que viveu.
Essa construção cria uma interessante relação entre prisão e liberdade.
A prisão representa aquilo que podemos compreender de maneira mais concreta: uma sentença, uma pena e um período determinado de tempo. Mas o passado não necessariamente obedece ao mesmo relógio.
Dez anos podem passar, mas determinadas lembranças continuam vivas.
E é aí que Morro dos Mortos ganha uma dimensão mais psicológica.
Bento não é apresentado simplesmente como alguém que cumpriu sua pena e voltou para a sociedade. Ele é alguém que precisa descobrir se é possível realmente deixar para trás aquilo que fez.
E acredito que essa seja uma das questões mais interessantes levantadas pelo curta: uma pessoa consegue escapar das consequências de seus próprios atos simplesmente porque cumpriu uma sentença?
A resposta apresentada pela obra parece ser muito mais complexa do que um simples sim ou não.
Existe uma diferença entre cumprir uma pena e conseguir reconstruir a própria vida.
Também me chamou atenção a maneira como o filme utiliza o passado de Bento para estabelecer uma analogia com problemas sociais maiores. A criminalidade não pode ser analisada apenas pela perspectiva individual. Existem questões econômicas, sociais e estruturais que ajudam a construir determinados contextos de vulnerabilidade.
A desigualdade social aparece, portanto, como parte desse cenário, lembrando que as escolhas individuais também acontecem dentro de determinadas condições de vida.
Mas o filme não transforma Bento simplesmente em uma vítima das circunstâncias.
Ele também é alguém que fez escolhas e precisa lidar com elas.
Essa é uma característica que considero importante na narrativa: conseguir apresentar uma reflexão social sem retirar do personagem a responsabilidade por aquilo que fez.
E então chegamos ao elemento que mais me surpreendeu: o desfecho.
A maneira como a história termina muda a percepção que construímos ao longo da narrativa e demonstra uma ousadia muito grande por parte de Janderson Rodrigues.
O curta consegue utilizar a expectativa criada pelo espectador para conduzir a história para um caminho diferente daquele que inicialmente imaginamos.
E é justamente esse tipo de construção que faz com que uma obra curta consiga permanecer na cabeça depois que termina.
Você começa acreditando que está diante de uma história sobre criminalidade, prisão e desigualdade social, mas percebe que existe algo a mais por trás daquela narrativa.
Existe uma discussão sobre culpa.
Sobre memória.
Sobre consequências.
Sobre a impossibilidade de simplesmente apagar determinadas partes da nossa história.
E existe, principalmente, a ideia de que alguns fantasmas não precisam necessariamente estar diante dos nossos olhos para continuarem presentes.
Eles podem existir dentro da nossa consciência.
Morro dos Mortos me surpreendeu justamente por isso. O curta parte de uma premissa que poderia seguir por um caminho bastante conhecido, mas encontra uma maneira criativa de trabalhar suas ideias e entregar uma experiência que vai além da crítica social mais evidente.
É uma história sobre um homem que ficou dez anos preso, mas que precisa descobrir se realmente conseguiu se libertar.
Porque talvez a maior prisão de Bento não seja aquela que ficou para trás.
Talvez seja justamente aquilo que ele ainda carrega consigo.
Curta disponível na plataforma da UnivFilms:https://theunivfilms.com
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