Análise do Filme: Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1977, no mesmo ano em que o espaço sideral era dominado pelas batalhas épicas de Star Wars, Steven Spielberg apresentou ao mundo uma perspectiva radicalmente oposta e intimista sobre a vida extraterrestre. Em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, o diretor não foca em impérios galácticos, mas no impacto do desconhecido no quintal de cidadãos comuns. O filme estabelece uma odisseia espiritual e científica que redefine o papel da humanidade perante o cosmos, transformando o “outro” alienígena de uma ameaça em um espelho de nossas próprias aspirações.
O centro da trama é ocupado por Roy Neary (Richard Dreyfuss), um homem comum cuja existência suburbana é estilhaçada por um encontro inexplicável em uma estrada deserta. A narrativa de Spielberg é audaciosa ao mostrar que o contato extraterrestre não é apenas um evento físico, mas um despertar psicológico. Roy torna-se obcecado por uma imagem mental ( uma montanha de topo achatado que ele tenta reconstruir freneticamente com purê de batatas ou argila).
Essa busca por sentido representa a crise existencial do homem moderno: a sensação de que falta algo na vida cotidiana e que a resposta está “lá fora”. Paralelamente, o cientista francês Claude Lacombe (François Truffaut) personifica a abordagem metódica, porém igualmente maravilhada, da ciência, unindo os dois arcos na icônica Devils Tower, no Wyoming.
Um dos pilares do filme é a importância da comunicação. Spielberg e o compositor John Williams criaram uma das soluções mais criativas da história do cinema: o uso da música e da luz como linguagem matemática e emocional. As famosas cinco notas musicais não são apenas um código; elas representam a superação de barreiras linguísticas e culturais. O filme sugere que a ciência e a arte são as únicas pontes capazes de unir civilizações tão distintas, culminando em uma “conversa” sinestésica entre a Nave-Mãe e o sintetizador na base terrestre.
A estética do filme, potencializada pela fotografia de Vilmos Zsigmond e pelos efeitos práticos de Douglas Trumbull, evita o terror sombrio em favor de uma luz divina e celestial. As naves não são tanques de guerra, mas cidades flutuantes iluminadas. No entanto, em contraste com essa luz, está a sombra da autoridade governamental. Spielberg exercita uma crítica contundente ao sigilo militar e à burocracia, que tentam afastar os indivíduos do contato através de mentiras e falsos desastres químicos. O filme defende que o contato com o transcendente pertence ao indivíduo e à humanidade, não aos governos.
A representação da infância, através do pequeno Barry Guiler, é fundamental para a tese de Spielberg. Enquanto os adultos reagem com medo ou confusão, a criança encara a presença alienígena com curiosidade pura e sem preconceitos. Para o diretor, a imaginação é o requisito básico para o progresso humano; apenas aqueles que mantêm o “olhar da criança” são capazes de aceitar o convite para o desconhecido. Isso culmina na decisão final de Roy: abandonar sua vida terrena para embarcar na nave, uma metáfora poderosa para a evolução humana que exige o desapego de velhas estruturas.
Spielberg emprega frequentemente o plano de conjunto para situar o ser humano como uma figura minúscula diante da vastidão do deserto ou da magnitude tecnológica. Essa escala enfatiza a vulnerabilidade da espécie humana perante o cosmos.
Entretanto, o coração do filme reside nos planos fechados (close-ups). É aqui que nasce o “Spielberg Face”: a câmera faz um¹ push-in lento (zoom ou movimento de trilho em direção ao rosto) enquanto o ator olha para fora do quadro com uma expressão de choque e fascínio. Esse recurso cinematográfico remove a necessidade de diálogos, transferindo a emoção da descoberta diretamente para o espectador através do olhar dos personagens.
O uso de ângulos em contra-plongée é predominante na representação das naves espaciais. Ao filmar de baixo para cima, Spielberg confere às luzes no céu uma qualidade de autoridade e divindade. No clímax do filme, na base montada na “Montanha do Diabo”, os ângulos de câmera reforçam a ideia de um templo moderno, onde cientistas e militares olham para cima em uma postura de submissão intelectual e espiritual.
Em contrapartida, os ângulos ao nível do olho são reservados para as tensões humanas, criando uma sensação de realismo cru que contrasta com a perfeição geométrica e luminosa das naves.
O legado de “Contatos Imediatos” é imensurável. Ele pavimentou o caminho para filmes como E.T. – O Extraterrestre e, mais recentemente, A Chegada (2016), que também prioriza a linguística e a diplomacia cósmica. Ao substituir a paranoia da Guerra Fria por um otimismo transcendental, Spielberg entregou não apenas um filme sobre alienígenas, mas um tratado sobre a capacidade humana de sonhar, comunicar-se e buscar um propósito maior entre as estrelas.
O filme permanece, décadas depois, como um lembrete de que a tecnologia, quando guiada pela curiosidade e pela arte, pode ser o meio pelo qual finalmente entenderemos nosso lugar no vasto e misterioso universo.

Ficha Técnica de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977)

  • Título original: Close Encounters of the Third Kind
  • Direção: Steven Spielberg
  • Roteiristas: Steven Spielberg, Paul Schrader (não creditado), Hal Barwood (não creditado), Matthew Robbins (não creditado)
  • Elenco principal:
  • Richard Dreyfuss como Roy Neary
  • Teri Garr como Ronnie Neary
  • Melinda Dillon como Jillian Guiler
  • François Truffaut como Claude Lacombe
  • Cary Guffey como Barry Guiler
  • Gênero: Ficção Científica
  • Duração: 2 horas e 15 minutos (135 minutos)
  • País de origem: Estados Unidos
  • Idioma: Inglês

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