Marcelo Kricheldorf
A expressão “a morte do cinema” tem ecoado com frequência crescente nos debates culturais contemporâneos. O que se observa, contudo, não é necessariamente o fim da narrativa fílmica, mas a erosão de um modelo de negócio e de um ritual social que definiram o século XX. Diante da hegemonia das plataformas de streaming e da consolidação de monopólios transnacionais, o cinema atravessa sua crise de identidade mais profunda desde o advento da televisão.
A transição do mercado cinematográfico para o ambiente digital alterou a lógica fundamental da indústria. Anteriormente, o sucesso de uma obra era medido pela bilheteria e pela longevidade nas salas; hoje, o algoritmo é o novo senhor. Plataformas priorizam o volume e a retenção de dados sobre a qualidade estética. Isso impacta diretamente a produção: filmes são estruturados para capturar a atenção nos primeiros minutos, evitando o risco artístico em favor de fórmulas testadas. A distribuição, por sua vez, tornou-se verticalizada, onde o produtor é também o exibidor, eliminando intermediários, mas também restringindo a visibilidade de obras que não se encaixam no “perfil” do assinante.
O mercado atual é marcado por um oligopólio de grandes conglomerados. Essas empresas detêm o controle de franquias multibilionárias que ocupam até 90% das salas de um complexo de cinema. Esse domínio sufoca a diversidade cultural e transforma o cinema em um “parque temático” de sequências e remakes. Paralelamente, ocorre a perda da experiência cinematográfica: o ato de silenciar o celular e compartilhar uma emoção coletiva em uma sala escura é substituído pelo consumo fragmentado em dispositivos móveis, onde a imersão é interrompida por notificações e pela luz azul das telas domésticas.
Nesse cenário árido, os cinemas independentes e de rua assumem um papel de resistência. Eles sobrevivem não pelo lucro massificado, mas pela curadoria e pela criação de comunidade. O comportamento do público mudou; o espectador médio tornou-se mais caseiro, reservando a ida ao cinema apenas para “eventos” visuais grandiosos. Entretanto, há um nicho crescente que busca no cinema independente o que o streaming não oferece: o debate, a cinematografia autoral e o valor histórico da obra de arte.
Um dos perigos mais silenciosos desta era é a negligência com o patrimônio cinematográfico. No modelo de streaming, filmes podem desaparecer de um dia para o outro devido a questões de licenciamento, sem deixar registros físicos. Por isso, a preservação e a implementação de políticas públicas são vitais. No Brasil, o debate sobre a regulação do streaming e a manutenção de cotas de tela via ANCINE é fundamental para garantir que a produção nacional não seja soterrada por conteúdos estrangeiros padronizados. A regulação não deve ser vista como censura, mas como a proteção da soberania cultural.
Inovação e o Futuro do Cinema
Apesar do tom pessimista que muitos adotam, a crise é também um terreno fértil para a inovação. A necessidade de atrair o público de volta às salas está forçando cineastas a explorar novas tecnologias (como o uso avançado de som imersivo e projeções diferenciadas) e narrativas que desafiam o espectador. O futuro do cinema reside na sua capacidade de oferecer o que o ambiente doméstico não consegue simular. O cinema não está morrendo; ele está se despojando de sua obrigação de ser o entretenimento de massa padrão para se tornar, novamente, uma forma de arte seleta, profunda e insubstituível.
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Formidável texto e dissertação