Análise do Filme: Cada um Vive como Quer (1970)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1970, no auge do movimento conhecido como Nova Hollywood, “Cada um Vive como Quer” (Five Easy Pieces), dirigido por Bob Rafelson, permanece como um dos retratos mais contundentes da alienação masculina e da crise de identidade na América do século XX. O filme não apenas consolidou Jack Nicholson como a voz de uma geração rebelde, mas também subverteu a narrativa tradicional do “sonho americano”, substituindo a ascensão social por uma deriva existencial sem destino.
A trama acompanha Robert Dupea (Nicholson), um homem que vive em constante estado de fuga. Quando o conhecemos, ele trabalha em campos de petróleo na Califórnia, cercado por uma rotina de boliche, cerveja e um relacionamento instável com Rayette (Karen Black). Contudo, a narrativa logo revela que essa vida operária é uma máscara: Robert é, na verdade, um prodígio do piano vindo de uma família de intelectuais ricos. O retorno à casa da família em Washington, motivado pela doença terminal de seu pai, serve como o catalisador para um confronto entre o passado que ele rejeitou e o presente vazio que ele construiu.
O título original, Five Easy Pieces (Cinco Peças Fáceis), refere-se a um livro de exercícios de piano para iniciantes. A ironia reside no fato de que, embora Robert possa executar essas peças com facilidade técnica, ele é incapaz de lidar com as “peças” complexas de sua própria vida. Sua busca por identidade é, na verdade, uma negação sistemática de quem ele é. Ele foge da alta cultura por considerá-la estéril e pretensiosa, mas despreza a cultura popular por considerá-la ignorante. Robert não se encaixa em lugar algum.Vive em um “vácuo” onde nenhuma identidade lhe serve
O filme oferece uma crítica mordaz às barreiras de classe. Robert tenta a mobilidade descendente, acreditando que a vida proletária seria mais autêntica. No entanto, sua arrogância intelectual vaza constantemente, seja no desprezo por Rayette ou na famosa cena do restaurante, onde ele humilha uma garçonete por causa de um pedido de torradas. Rafelson sugere que a classe social não é apenas uma questão de dinheiro, mas de códigos culturais dos quais Robert não consegue escapar, transformando-o em um eterno turista em qualquer estrato social que visite.
O cerne emocional do filme reside na relação de Robert com seu pai, um homem que sofreu um derrame e está incapacitado de falar. Esse silêncio é a metáfora perfeita para a desconexão geracional. Em um dos monólogos mais viscerais do cinema, Robert chora diante do pai imóvel, pedindo desculpas por não ter se tornado o que se esperava dele, mas admitindo que sua vida é um rastro de escolhas ruins. A incapacidade de comunicação entre os dois reflete uma falha mais profunda na estrutura familiar: uma herança de frieza artística que substituiu o afeto genuíno pela técnica perfeita.
A direção de Rafelson, aliada à fotografia de László Kovács, utiliza o espaço para reforçar a solidão de Robert. As paisagens vastas e cinzentas do noroeste americano contrastam com os interiores claustrofóbicos da mansão da família Dupea. A música, que deveria ser um meio de conexão e expressão, torna-se uma ferramenta de isolamento. Quando Robert toca Chopin para a namorada de seu irmão, ele o faz com perfeição, mas logo descarta a emoção do momento, revelando que não sente nada — apenas a técnica permanece.
Cada um Vive como Quer é uma crítica à promessa de liberdade da contracultura. Ao contrário dos filmes que celebravam a rebeldia como um caminho para a iluminação, este longa apresenta a liberdade como um fardo.
O filme encerra-se com uma das imagens mais desoladoras do cinema: Robert abandona tudo — sua namorada, seu carro, seu passado — e pega carona em um caminhão rumo ao norte gélido, sem casaco e sem destino. É o retrato final de um homem que prefere o aniquilamento do “ser” ao compromisso de “pertencer”. Através dessa obra-prima, Bob Rafelson entregou um estudo psicológico que ainda ressoa como um alerta sobre o vazio que resta quando a fuga se torna o único propósito de vida.

Aqui está a ficha técnica do filme “Cada um Vive como Quer” (Five Easy Pieces, 1970):

  • Título original: Five Easy Pieces
  • Direção: Bob Rafelson
  • Roteiro: Adrien Joyce, Bob Rafelson
  • Elenco:
  • Jack Nicholson (Robert Dupea)
  • Karen Black (Rayette Dipesto)
  • Billy Green Bush (Elton)
  • Fanny Flamm (Partie Dupea)
  • Sally Struthers (Betty)
  • Música: Johann Sebastian Bach, Frédéric Chopin
  • Cinematografia: László Kovács
  • Edição: Christopher Holmes, Gerald Shepard
  • Duração: 98 minutos
  • Gênero: Drama
  • País de origem: Estados Unidos

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