Análise do Filme: Dublê de Corpo (1984)

Critica de Filmes

O Labirinto de Lentes e Desejos🎬🎥
⭐⭐⭐⭐⭐

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1984, “Dublê de Corpo” (Body Double) permanece como uma das obras mais controversas, técnicas e fascinantes da filmografia de Brian De Palma. Mais do que um simples suspense erótico, o filme é um ensaio cinematográfico sobre o ato de olhar, a artificialidade da imagem e a herança do suspense clássico adaptada à decadente estética neon dos anos 80.
A trama acompanha Jake Scully (interpretado por Craig Wasson), um ator que sofre de uma claustrofobia paralisante — uma ironia cruel para alguém que depende de palcos e estúdios. Após perder o emprego e flagrar a traição da namorada, Jake é convidado a cuidar de uma luxuosa residência moderna em Hollywood Hills. É lá que ele descobre um “espetáculo” noturno: através de um telescópio, ele observa uma vizinha, Gloria Revelle, realizar uma dança erótica.
O que começa como voyeurismo passivo transforma-se em um pesadelo quando Jake testemunha o assassinato brutal de Gloria. A partir daí, a narrativa mergulha em um labirinto onde a identidade é uma moeda de troca e a realidade é constantemente substituída por sua representação — seja através da indústria pornô, dos efeitos especiais ou, literalmente, por dublês.
De Palma constrói uma Los Angeles que oscila entre o luxo arquitetônico e a sordidez dos bastidores da indústria cinematográfica. A atmosfera é carregada por uma trilha sonora hipnótica de Pino Donaggio e uma fotografia que utiliza cores saturadas e filtros suaves para criar uma sensação de sonho (ou delírio). O clima é de uma constante vigília; em “Dublê de Corpo”, a privacidade é uma ilusão e a câmera é sempre uma intrusa.
O filme é um diálogo aberto com a obra de Alfred Hitchcock. De Palma funde as premissas de “Janela Indiscreta” (o voyeurismo como catalisador do crime) e “Um Corpo que Cai” (a obsessão por uma mulher idealizada e o trauma psicológico). No entanto, De Palma vai além da simples cópia: ele subverte o mestre ao inserir a sexualidade explícita e a violência gráfica que o Código Hays proibia em décadas anteriores.
A metalinguagem é o coração do filme. Ao colocar um ator como protagonista e levá-lo ao mundo da pornografia — onde ele conhece a icônica Holly Body (Melanie Griffith) — De Palma discute a natureza do cinema. Ele nos lembra que tudo o que vemos na tela é uma construção. O título “Dublê de Corpo” não se refere apenas à técnica de substituição de atores em cenas de nudez, mas à própria essência da identidade na era da imagem.
A violência em “Dublê de Corpo” é operística e perturbadora. A famosa cena da furadeira elétrica é um marco do cinema de horror dos anos 80, simbolizando a invasão física e psicológica. Essa brutalidade contrasta com momentos de pura cultura pop, como o videoclipe de “Relax”, da banda Frankie Goes to Hollywood, inserido no meio do filme. Essa mistura de “alta cultura” cinematográfica com a estética kitsch e MTV define o pós-modernismo de De Palma.
O legado de “Dublê de Corpo” reside na sua coragem de ser um filme “não confiável”. Ele desafia o espectador a distinguir entre o que é real e o que é encenado dentro da própria ficção. Melanie Griffith, em uma performance premiada e corajosa, tornou-se um ícone da subversão feminina, interpretando uma mulher que detém o poder sobre sua própria imagem em um mundo de homens que apenas observam.
Hoje, o filme é celebrado por teóricos do cinema como um estudo sobre a psique masculina e a fragilidade da verdade na era mediática. Brian De Palma não apenas dirigiu um thriller; ele criou um espelho distorcido que reflete a nossa própria obsessão por olhar, consumir e ser enganado pelo brilho das telas.

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