Marcelo Kricheldorf
Em 1956, Alfred Hitchcock revisitou sua própria filmografia para refinar uma premissa que já havia explorado em 1934. Se a primeira versão era a obra de um “amador talentoso”, como o próprio diretor definia, o remake é o triunfo do profissionalismo cinematográfico. Estrelando James Stewart e Doris Day, o filme transcende o gênero de espionagem para se tornar um ensaio sobre a paranoia e a resiliência da família americana em solo estrangeiro.
A trama inicia-se com o Dr. Ben McKenna e sua esposa, Jo, em uma viagem turística ao Marrocos. O equilíbrio doméstico é rompido quando um espião francês, disfarçado de árabe, é assassinado nos braços de Ben em um mercado em Marrakech, sussurrando segredos sobre um atentado iminente em Londres. O sequestro do filho do casal, Hank, serve como o catalisador que transforma turistas passivos em agentes desesperados. Hitchcock utiliza essa narrativa para colocar o espectador na pele de quem “sabe demais”, mas nada pode fazer, criando uma agonia compartilhada entre o público e os protagonistas.
A política no filme é o que Hitchcock chamava de “MacGuffin” — um pretexto narrativo que impulsiona a ação, mas que não possui importância intrínseca. O que realmente importa é a paranoia. O filme explora o medo do “outro” e a insegurança de estar em um país estrangeiro onde os códigos sociais e a linguagem são barreiras. A ansiedade é personificada na figura de Jo McKenna; como ex-cantora famosa que abandonou a carreira pela família, ela vive em uma tensão constante entre o dever materno e a intuição aguçada, sendo muitas vezes mais perspicaz que o marido, o racional Dr. Ben.
A proteção familiar é o núcleo emocional da obra. O sequestro de Hank desestabiliza a hierarquia patriarcal da época, forçando o casal a confrontar sua própria impotência. O simbolismo atinge seu ápice com a canção “Que Sera, Sera”. Longe de ser apenas um interlúdio musical, a música torna-se uma ferramenta de busca: é através do grito melódico de Jo que o filho é localizado. O título da canção — “o que tiver de ser, será” — ironiza a luta desesperada dos pais para controlar um destino que parece estar nas mãos de conspiradores invisíveis.
Tecnicamente, o filme é um marco pela sequência final no Royal Albert Hall. Durante doze minutos de música orquestral, Hitchcock comunica tudo através da montagem e do olhar, sem um único diálogo. O suspense é construído sobre a expectativa de um tiro de revólver que deve coincidir com o choque dos címbalos. É o ápice da técnica hitchcockiana: a manipulação do tempo subjetivo e a transformação do som em uma arma de tensão física.
Comparado à versão de 1934, o filme de 1956 é mais grandioso, denso e psicologicamente complexo. A atuação de James Stewart, com sua vulnerabilidade característica, aliada à força dramática surpreendente de Doris Day, ancora o filme na realidade humana. “O Homem que Sabia Demais” permanece como uma obra fundamental para entender como Hitchcock utilizava o cinema para explorar os abismos que existem sob a superfície da vida cotidiana, provando que o maior terror não vem do sobrenatural, mas da perda súbita de segurança naqueles que amamos.
Ficha Técnica de “O Homem que Sabia Demais” (1956)
- Título original: The Man Who Knew Too Much
- Direção: Alfred Hitchcock
- Roteiristas: John Michael Hayes e Angus MacPhail, baseado na história “The Man Who Knew Too Much” de A.R. Rawlinson e Charles Bennett
- Elenco principal:
- James Stewart como Dr. Benjamin “Bob” Clive
- Doris Day como Josephine “Jo” McKenna
- Brenda de Banzie como Lucy Drayton
- Bernard Miles como Edward Drayton
- Ralph Truman como Inspetor Buchanan
- Gênero: Suspense, Thriller
- Duração: 1h 58min (120 minutos)
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
![]()

