Marcelo Kricheldorf
Serpico” (1973), dirigido pelo aclamado Sidney Lumet e estrelado por Al Pacino, transcendeu as fronteiras do gênero policial para se tornar um marco do cinema de denúncia e um estudo profundo sobre a solidão da integridade em face da corrupção sistêmica. A obra, baseada na história real do policial Frank Serpico, oferece uma visão crua e desglamourizada da polícia de Nova York na década de 1960 e início dos anos 70.
A trama segue a jornada de Frank Serpico, um recruta idealista que entra na força policial com o sonho de fazer a diferença. Rapidamente, ele se depara com uma realidade chocante: a corrupção não é exceção, mas a regra. O filme adota uma estrutura quase documental para narrar a progressiva desilusão de Serpico ao longo de doze anos. Sua recusa em aceitar subornos de criminosos, que variam de apostadores a traficantes, o transforma em um pária dentro de sua própria corporação. A narrativa de Lumet é magistral ao construir a tensão: o verdadeiro perigo para Serpico não vem das ruas, mas dos colegas no camburão e nos vestiários, que o veem como uma ameaça existencial ao seu lucrativo status quo.
O coração do filme é a crítica mordaz à instituição policial. “Serpico” expõe a “lei do silêncio”, um código de lealdade inquestionável que sufoca qualquer tentativa de denúncia. A corrupção é retratada como endêmica, um sistema de propinas tão arraigado que até mesmo policiais honestos são forçados a se conformar ou a fechar os olhos. A crítica de Lumet é direcionada à cultura organizacional que protege os corruptos e isola os justos, sugerindo que a instituição, em sua essência, falhou em se autorregular.
Frank Serpico é um herói relutante e profundamente falível. Al Pacino entrega uma performance visceral, capturando a paranoia crescente e o desgaste psicológico de um homem que sacrifica sua vida pessoal, seus relacionamentos e sua sanidade em nome de um princípio moral. A transformação física de Pacino — desde o recruta de cabelo curto até o hippie de barba e cabelo comprido que se disfarça para operações de infiltração — espelha sua alienação crescente da força policial tradicional. Sua teimosia e, às vezes, sua arrogância o tornam uma figura complexa, um homem cuja integridade inabalável é, ao mesmo tempo, sua maior força e sua tragédia pessoal. A atuação lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator e se tornou icônica.
Sidney Lumet, um mestre em filmar a cidade de Nova York e suas instituições falidas (como visto em “Um Dia de Cão” e “Rede de Intrigas”), utiliza um estilo de direção cru e realista. A cinematografia de Arthur Ornitz captura a sujeira e a desolação da cidade nos anos 70. Lumet evita floreios estilísticos, focando na progressão dramática e no tormento interno de Serpico. O ritmo é deliberadamente tenso, aumentando a sensação de claustrofobia e perigo iminente que Serpico sente em todos os lugares, inclusive em sua própria casa.
Lançado em 1973, “Serpico” ressoou fortemente com o público americano, que vivia o auge do escândalo de Watergate, um período de profunda desconfiança nas autoridades e no governo. O filme capitalizou esse sentimento e ajudou a moldar o “Novo Cinema Americano” dos anos 70, que preferia narrativas mais sombrias e moralmente ambíguas.
A influência de “Serpico” é imensurável. Ele estabeleceu o arquétipo do “tira-fora-da-lei” que luta contra seu próprio sistema e pavimentou o caminho para dramas policiais mais realistas e complexos. O filme permanece como um estudo atemporal sobre o custo da retidão e um lembrete poderoso de que, às vezes, o maior ato de coragem é simplesmente se recusar a ceder à pressão do coletivo corrupto.
Ficha Técnica de “Serpico” (1973)
- Título original: Serpico
- Direção: Sidney Lumet
- Roteiristas: Waldo Salt e Norman Wexler
- Elenco principal:
- Al Pacino como Frank Serpico
- John Randolph como Sidney Green
- Jack Kehoe como Tom Keough
- Biff McGuire como Inspetor McClain
- Barbara Eda-Young como Laurie
- Gênero: Biográfico, Crime, Drama
- Duração: 1h 49min (109 minutos)
- País de origem: Estados Unidos, Itália
- Idioma: Inglês
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