Marcelo Kricheldorf
O cinema americano de meados da década de 1970 foi marcado por um profundo pessimismo e pela desconstrução de mitos nacionais. No centro dessa transição está “Um Lance no Escuro” (1975), dirigido por Arthur Penn. Longe de ser apenas um thriller de detetive convencional, o filme funciona como uma autópsia da psique americana pós-Watergate e pós-Vietnã, onde a busca pela verdade não leva à justiça, mas ao reconhecimento da própria impotência.
A trama acompanha Harry Moseby (Gene Hackman), um ex-jogador de futebol americano que se tornou detetive particular. Ele é contratado para encontrar Delly Grastner (Melanie Griffith, em um papel de estreia impactante), uma adolescente fugitiva mergulhada em um mundo de excessos sexuais e perigosos. A investigação conduz Harry de Los Angeles à beleza estéril das Florida Keys. No entanto, o verdadeiro conflito não reside nas pistas externas, mas na miopia existencial de Harry: enquanto ele tenta resolver o mistério do desaparecimento de Delly, ele é incapaz de notar a traição de sua própria esposa, Ellen, em sua vida privada. Essa dualidade estabelece o tema central: o homem que busca a “verdade” fora de si, mas é cego para a realidade que o cerca.
Arthur Penn utiliza a investigação para questionar a eficácia da moralidade tradicional. Harry opera com um código de ética que parece obsoleto em um mundo onde as motivações são puramente materiais ou niilistas. A investigação e a busca pela verdade revelam-se labirintos sem saída. Diferente dos detetives clássicos de Raymond Chandler, que restauravam uma ordem (ainda que precária) ao final, Harry Moseby termina o filme perdido, literalmente e figurativamente. A moralidade é tratada como algo elástico e corruptível; os vilões não são gênios do crime, mas oportunistas medíocres em uma engrenagem de contrabando que Harry custa a compreender.
A relação entre Harry e Paula (Jennifer Warren) na Flórida é o ponto de virada emocional do filme. Paula representa a femme fatale moderna — não uma sedutora fatalista, mas uma mulher pragmática e desencantada que busca conexão em meio ao caos. O envolvimento de Harry com ela é tanto um ato de vingança emocional contra sua esposa quanto um erro fatal de julgamento profissional. Paula atua como um espelho para Harry, forçando-o a confrontar seu próprio vazio. O sexo entre eles não é uma libertação, mas uma complicação que nubla ainda mais a percepção do detetive sobre o crime que deveria estar resolvendo.
A atuação de Gene Hackman é o alicerce do filme. Hackman evita o heroísmo, entregando um homem cujo intelecto é constantemente desafiado por sua teimosia. Sua vulnerabilidade é palpável, especialmente na famosa cena em que ele discute um jogo de xadrez, admitindo que o mestre do jogo cometeu um erro por não ver o perigo óbvio — uma metáfora para sua própria vida. A direção de Arthur Penn é cirúrgica; ele subverte o noir ao usar cores saturadas e espaços abertos que, em vez de oferecerem clareza, sufocam o protagonista em sua própria confusão. O clímax final no mar é uma das conclusões mais desoladoras do cinema, simbolizando a natureza cíclica e fútil do esforço humano frente à entropia.
“Um Lance no Escuro” é o testamento visual de uma nação que perdeu a fé em suas instituições. O filme reflete a paranoia e o cinismo de 1975, um período em que os grandes ideais americanos foram substituídos por um pragmatismo sombrio. Sua influência é vasta, reverberando em obras contemporâneas que utilizam o mistério para explorar o vazio existencial.
Em última análise, o filme de Arthur Penn não é sobre um crime resolvido, mas sobre o momento em que um homem percebe que, embora tenha movido todas as peças corretamente no tabuleiro da vida, ele nunca esteve realmente no controle do jogo. É uma obra-prima do neo-noir que permanece dolorosamente atual em sua exploração da verdade como algo subjetivo e, muitas vezes, insuportável.
Ficha Técnica de “Um Lance no Escuro” (1975)
- Título original: Night Moves
- Direção: Arthur Penn
- Roteiristas: Alan Sharp
- Elenco principal:
- Gene Hackman como Harry Moseby
- Jennifer Warren como Paula
- Susan Clark como Ellen Moseby
- Melanie Griffith como Delly Grastner
- Edward Binns como Joey Ziegler
- Gênero: Mistério, Suspense
- Duração: 1h 39min (99 minutos)
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
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