🎬🎥⭐⭐⭐⭐⭐
🎬
O Espetáculo do Medo e do Desejo:
Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1980, “Vestida para Matar” (Dressed to Kill) não é apenas um suspense policial; é o ápice da técnica cinematográfica de Brian De Palma. Ao transitar entre o erotismo e o horror, o filme estabeleceu-se como uma obra-chave do pós-modernismo, onde a forma muitas vezes precede o conteúdo para criar uma experiência sensorial visceral sobre a psique humana.
A narrativa inicia-se focada em Kate Miller (Angie Dickinson), uma mulher de meia-idade atormentada por fantasias sexuais e um casamento gélido. Após uma sessão de terapia com o Dr. Robert Elliott (Michael Caine), ela se envolve em um encontro casual em um museu que culmina em sua morte brutal em um elevador.
A estrutura narrativa é audaciosa porque utiliza o “falso protagonista”. De Palma desloca o eixo dramático no meio do filme, transferindo a responsabilidade da condução da trama para Liz Blake (Nancy Allen), uma prostituta que testemunha o crime, e Peter Miller (Keith Gordon), o filho da vítima. Essa quebra estrutural desestabiliza o espectador, removendo o porto seguro da narrativa e mergulhando-o em um mistério que mistura investigação amadora e perigo real.
A atmosfera de “Vestida para Matar” é onírica e claustrofóbica. De Palma não apenas homenageia Alfred Hitchcock, ele o desconstrói. O filme é uma resposta direta a Psicose (1960), mas com a liberdade gráfica dos anos 80. A cena do museu, por exemplo, é um tributo ao cinema mudo e à suspensão do tempo hitchcockiana: são minutos de puro jogo visual, olhares e sedução sem uma única linha de diálogo, amparados pela trilha sonora hipnótica de Pino Donaggio.
A câmera de De Palma comporta-se como um perseguidor, utilizando planos-sequência fluidos e o recurso da split-screen (tela dividida) para mostrar ações paralelas, aumentando a tensão e a sensação de que ninguém está seguro — nem o personagem, nem o espectador.
Os personagens são arquétipos da repressão. O Dr. Elliott representa a fachada da racionalidade científica que esconde um abismo psíquico. A exploração da identidade no filme foca na dualidade de gênero e na fragmentação da personalidade. O antagonista é apresentado como uma figura dividida, “Bobbi”, que personifica a luta interna entre o masculino e o feminino.
Embora essa abordagem tenha envelhecido sob fortes críticas, na época ela servia para personificar o tema do “duplo” (doppelgänger), comum no Cinema Noir, onde o mal não é algo externo, mas uma extensão sombria do eu.
A morte no elevador é coreografada com uma navalha que brilha como um objeto de fetiche, unindo agressão e erotismo — uma característica central do giallo italiano (subgênero do qual De Palma também bebeu). A fixação do diretor pelo detalhe sangrento serve para pontuar a natureza perversa da trama.
As referências ao Noir aparecem na Nova York sombria, nas ruas molhadas e na ambiguidade moral de Liz Blake, uma heroína incomum que vive à margem da sociedade, mas que se torna a bússola ética do filme ao lado do jovem Peter, que usa a tecnologia (câmeras e gravadores) como uma extensão de seus olhos para desvendar o que os adultos tentam esconder.
O legado de “Vestida para Matar” é inegável. Ele influenciou gerações de cineastas ao mostrar que o suspense pode ser esteticamente belo e tecnicamente complexo. É uma obra que exige ser “olhada” tanto quanto “sentida”, consolidando-se como um estudo provocativo sobre o desejo, a morte e a própria natureza da observação cinematográfica.
Ficha Técnica de “Vestida para Matar” (1980)
- Título original: Dressed to Kill
- Direção: Brian De Palma
- Roteiristas: Brian De Palma
- Elenco principal:
- Angie Dickinson como Kate Miller
- Michael Caine como Dr. Robert Elliott
- Nancy Allen como Liz Blake
- Keith Gordon como Peter Miller
- Dennis Franz como Detective Marino
- Gênero: Suspense, Crime, Thriller
- Duração: 105 minutos
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
![]()

