Durante séculos, o circo encantou gerações com palhaços, malabaristas, trapezistas e animais exóticos. Sob suas lonas coloridas, o riso e o espanto dividiam espaço com o cheiro de pipoca e de mato (rsrsrs). Era impossível pisar no tablado sem sentir aquela expectativa mágica do que estava por vir. Tudo era tão lúdico e tão novo que as emoções ficavam à flor da pele.
Os animais, os palhaços, a simplicidade que preenchia o ambiente com tanta energia e alegria…
Mas, a partir dos anos 1980, uma nova linguagem começou a se formar, transformando o espetáculo circense em arte poética e sensorial: nascia o Cirque du Soleil.
Uma mudança extraordinária estava em curso. O entretenimento familiar ganhava nova forma. Os elementos clássicos, como os animais que antes caminhavam entre nós , foram desaparecendo. E, nesse ponto, houve uma evolução. Muitas vezes, eu me sentia penalizada pelos animais que claramente não compreendiam o que estavam fazendo. Surgiam então dúvidas, reflexões e debates ambientais.
Aquilo que era simples se tornou requintado. O circo evoluiu.
O circo tradicional, com sua estética vibrante e espontânea, sempre teve como missão principal entreter. A linguagem era direta, o riso fácil, e o espetáculo se compunha por uma sequência de números independentes.
Com a chegada do Cirque du Soleil: quando o circo encontrou o teatro
Surgiu no Canadá, nos anos 1980, criado por artistas de rua.
Trouxe a fusão de diversas artes: dança, teatro, música original, acrobacia e iluminação cênica.
Aboliu o uso de animais, dando lugar à expressividade humana.
Criou narrativas visuais em que cada espetáculo conta uma história — muitas vezes, sem palavras.
O Cirque du Soleil elevou o espetáculo circense à categoria de arte contemporânea. Abandonou os estereótipos clássicos e apostou em narrativas visuais que emocionam e provocam reflexão. Cada número é uma peça dentro de um todo — uma verdadeira obra-prima visual.
Então, surge o impacto no mundo das artes e do circo:
Novos “circuitos” e estéticas se formam, inspirados nesse novo modelo.
O nível de profissionalização e exigência artística se eleva, assim como a exigência de um público mais criterioso.
O corpo passa a ser valorizado como linguagem principal.
Com o Cirque du Soleil, o público deixou de apenas “assistir” a um número para viver uma experiência sensorial. O picadeiro se transformou em palco, o palhaço virou personagem lírico, e os artistas passaram a contar histórias por meio do movimento — numa transformação que vai além da estética: representa uma nova forma de pensar a arte.
O circo nunca deixou de ser encantador. Mas o Cirque du Soleil mostrou que, além de fazer rir e surpreender, o espetáculo também pode emocionar, inspirar e dialogar com temas profundos.
Entre a gargalhada do palhaço tradicional e o silêncio poético de um acrobata suspenso no infinito, há espaço para todas as formas de arte. E o circo, felizmente, segue em constante metamorfose.
Eu tive o privilégio de ter aula com Marcos Casuo, o primeiro brasileiro a participar do Cirque du Soleil, em seu espetáculo “Alegria” — que inspirou não só a mim, mas a milhares de artistas.
Particularmente, vejo que essa evolução não só contribuiu para o meio artístico, mas também abriu novas possibilidades cênicas e criativas. Foi (e ainda é) um desenvolvimento necessário — uma transformação que enche nossos olhos de alegria e expectativa.
Reconheço que, para os mais antigos, esse processo pode ter sido um desafio. Muitos perderam seus espaços por não conseguirem se adaptar a essa nova jornada.
Por isso, é fundamental compreender cada etapa dessa transição e acolher todos nesse processo, sem esquecer de quem veio antes de nós. Porque eles são tão importantes quanto a própria evolução.
Foram eles que nos deram a possibilidade de crescer, criar e inovar!
E o melhor: o circo continua vivo. Em constante metamorfose, não só o circo mas como a arte!
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