Marlon Brando – O Apocalypse de Um Ator

Cinema

O grande diretor americano Martin Scorsese (Silêncio) considera o ator Marlon Brando (1924-2004) um divisor de águas no cinema mundial, o cineasta dividiu a história da sétima arte entre um antes e um depois do surgimento do astro. Brando nunca trabalhou com Scorsese, mas arrancar um elogio de um realizador deste porte não é pouca coisa, o que confirma a credibilidade do intérprete dentro da indústria cinematográfica mesmo morto há anos.

Seu prestígio era tamanho em Hollywood que inspirava medo em atores novatos, que temiam sua presença marcante e seu status de monstro sagrado. Ao mesmo tempo em que veteranos premiados sonhavam em contracenar com ele.

Brando era adepto do “Método”. Criado pelo russo Constantin Stanislávski (1863- 1938), como o “Sistema de Stanislávski”, e importado e adaptado para a América do Norte pelo Actors Studio, onde Brando estudou, aperfeiçoando sua técnica nas aulas que teve com Stella Adler (1901-1992), “O Método” consiste em que o intérprete deve empregar sentimentos pessoais na composição de seu personagem. É um mergulho profundo na persona fictícia, buscando uma espontaneidade, transformando o ator no personagem de uma maneira tal que a vida de um confunde-se com a do outro, de forma indissociável.

O célebre artista deixou sua marca na sétima arte por ter participado de quarenta e dois filmes, e ganhado dois Oscars, por Sindicato de Ladrões (1954), e O Poderoso Chefão (1972), além de ter dirigido um filme obrigatório para qualquer cinéfilo, A Face Oculta (1961). Ele ainda se deu ao atrevimento de recusar um de seus Oscars como protesto, reivindicando mais direitos para os nativos americanos.

No filme clássico Apocalypse Now (1979), épico sobre a Guerra do Vietnã (1959-1975), Brando interpretou o coronel Walter E. Kurtz, um personagem cuja aura mítica confere-lhe o aspecto de um semideus. Paradoxalmente, ao invés de divino, como se poderia esperar de alguém tão poderoso, o ex-militar se trata de um louco homicida, só que possui um carisma irresistível que atraiu um séquito de vietnamitas dispostos a morrer por ele.

O anti-herói deveria ter um porte atlético, mas o ator chegou ao local das gravações do filme (em Manila e nas Filipinas) quarenta quilos acima do peso, também não havia lido nem o romance Coração das Trevas (1899), de Joseph Conrad (1857-1924) – que inspirou o roteiro da obra cinematográfica -, e nem o texto adaptado por Francis Ford Coppola (Vidas sem Rumo) e John Milius (Amanhecer Violento).

Brando frequentemente circulava pelo set embriagado. Teve grandes brigas com Coppola, o diretor, devido a diferenças criativas. Mas apesar de toda a loucura durante as gravações do clássico, o astro entregou uma performance (toda baseada em improvisações) deslumbrante, sublime.

Kurtz recita o poema Os Homens Ocos (1925), de T. S. Eliot (1888-1965), na frente das câmeras. O romance Coração das Trevas foi citado como epígrafe dos versos de Eliot. A citação diz: “Sinhô Kurtz – ele tá morto”. Na mesa do coronel Kurtz se encontram os livros O Ramo de Ouro (1890), de Sir James George Frazer (1854-1941), e From Ritual to Romance (1920), de Jessie Weston (1850-1928), que inspiraram o texto mais importante do poeta, As Terras Devastadas (1922), que, por sua vez, também possui uma referência ao romance de Conrad e uma de Weston. O trecho de um monólogo de Kurtz diz o seguinte:

“Tenho visto horrores. Os horrores que você tem visto. Não têm o direito de me chamar de assassino, mas de me matar [Kurtz está se dirigindo ao Capitão Benjamin L. Willard,  interpretado por Martin Sheen, oficial das Operações Especiais do Exército dos Estados Unidos, enviado ao Vietnã para eliminá-lo]. Eu tenho esse direito. Mas não tem o direito de me julgar. As palavras não podem descrever o que ainda é necessário àqueles que não sabem o significado do horror. O horror… O horror tem um rosto. E nós temos de fazer do horror um amigo. O horror e o terror moral. São nossos amigos, se não são, então são inimigos a temer. São verdadeiros inimigos.”

Apocalypse Now é um filme de uma densidade poucas vezes igualada na história do cinema, um filme de guerra surrealista, uma verdadeira alegoria sobre uma viagem ao inferno e ao subconsciente de um maníaco, o próprio Kurtz.

As palavras finais do personagem, “O horror…”, permanecem um mistério indecifrável para as plateias que assistiram à produção. Só pesquisando a história pessoal do astro que o interpretou é que se pode quase vislumbrar e tentar compreender o que essa expressão significa para a vida caótica de seu intérprete.

A única resolução possível é que Brando e Kurtz estavam intimamente ligados. A força do personagem é sua incrível semelhança com o ator que o interpretou. Nenhum outro o faria com tamanha propriedade. A conclusão é que sem Brando não haveria Kurtz.

Loading

Compartilhe nosso artigo

6 thoughts on “Marlon Brando – O Apocalypse de Um Ator

    1. Obrigado pelo feedback, Marcelo. O Apocalypse Now é um filme para ser visto e revisto várias vezes, pois sempre terá algum detalhe novo da história a ser descoberto.

    1. Obrigado pelo elogio, Ricardo. Sem dúvida que é o filme da minha vida. Vou estudar bastante sobre ele para responder as perguntas corretamente na entrevista que faremos em breve.

    1. Obrigado pelo elogio, Samuca. O Marlon Brando está entre os meus 5 atores preferidos, e na lista de muita gente, eu imagino. Sua importância e influência para o cinema hollywoodiano e mundial de todos os tempos é inegável.

Deixe um comentário para Ricardo De Freitas Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *