O Cinema está perdendo sua Identidade?

Cinema

Crepúsculo da Sétima Arte: A Crise de Identidade no Cinema Contemporâneo

Marcelo Kricheldorf

Historicamente, o cinema consolidou-se como a “Sétima Arte” por sua capacidade singular de fundir narrativa, imagem e som em uma experiência de imersão coletiva. No entanto, na terceira década do século XXI, essa identidade parece estar se dissolvendo. O que outrora era uma forma de expressão artística autoral e um evento sociocultural, hoje enfrenta uma crise de autenticidade. Entre a pressão dos algoritmos de streaming, a onipresença das redes sociais e a automação tecnológica, o cinema atravessa uma metamorfose que levanta uma questão central: a arte está sendo sacrificada em favorl do consumo de conteúdo descartável?
A mudança no modelo de produção é o ponto central e fundamental dessa transformação. Com a consolidação das plataformas de streaming como principais financiadoras, o modelo de “bilheteria” foi substituído pela “retenção de dados”. Atualmente, as produções são frequentemente moldadas por algoritmos que ditam desde a escolha do elenco até as reviravoltas do roteiro, visando minimizar o risco financeiro. Esse cenário sufoca a visão do diretor e transforma o filme em um produto de prateleira digital, onde o valor de uma obra é medido por sua capacidade de manter o usuário logado, e não pela sua relevância estética ou temática.
A influência da tecnologia, embora tenha democratizado as ferramentas de criação, paradoxalmente gerou uma homogeneização visual e narrativa. O uso intensivo de CGI (imagens geradas por computador) e, mais recentemente, de ferramentas de Inteligência Artificial generativa na pós-produção, criou uma estética padronizada. Os filmes perderam a profundidade e textura do real; as cores são excessivamente saturadas ou artificialmente sombrias, e os cenários, muitas vezes inteiramente digitais, carecem de profundidade física. Essa uniformidade estende-se ao conteúdo: a dependência de franquias, remakes e universos compartilhados, resultam em histórias que seguem fórmulas matemáticas de sucesso, privando o espectador do elemento surpresa e originalidade.
A perda da identidade cinematográfica também passa pela erosão da experiência física. O ato de ir ao cinema, o silêncio, a tela gigante e a socialização estão sendo substituídos pelo consumo multitarefa. A influência das redes sociais impôs um ritmo frenético às montagens; filmes agora são pensados para serem consumidos em ritmo de vídeoclip, com cenas projetadas para viralizar em formatos curtos Essa fragmentação da atenção destrói a decupagem clássica e o tempo contemplativo do cinema, forçando diretores a sacrificarem a profundidade narrativa em favor de estímulos visuais constantes e imediatos.
A evolução dos gêneros reflete essa crise. Gêneros médios, como dramas adultos e comédias românticas, quase desapareceram das salas, sobrevivendo apenas como “conteúdo de nicho” em bibliotecas digitais. O que resta nos grandes complexos são os “filmes-evento”, que priorizam o espetáculo em detrimento da substância. No centro disso tudo, a questão da autenticidade torna-se o campo de batalha final. A alma do cinema reside na visão subjetiva e, por vezes, imperfeita do autor. Quando a arte tenta agradar a todos através de métricas de mercado, ela acaba não dizendo nada a ninguém.
Portanto, o cinema não está necessariamente morrendo, mas está perdendo a essência que o definia como arte autônoma. A identidade cinematográfica atualmente é um híbrido entre entretenimento tecnológico e marketing de influência. Para que o cinema recupere sua relevância enquanto expressão humana vital, é preciso que haja um movimento de resistência que valorize a originalidade sobre a fórmula, o risco sobre o algoritmo e a experiência da sala escura sobre a conveniência do smartphone. A tecnologia deve voltar a ser o pincel, e não o artista.

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