O Cinema Político de Jean-Luc Godard

Cinema

Marcelo Kricheldorf

A trajetória de Godard é marcada por uma transição radical do existencialismo da Nouvelle Vague para um engajamento marxista profundo. Durante o final da década de 1960, ele adotou o materialismo histórico como ferramenta de análise. Em filmes como A Chinesa (1967) e Tudo Vai Bem (1972), o cineasta expõe as contradições da sociedade de consumo. Para ele, o capitalismo não apenas explora o trabalho, mas coloniza o inconsciente através da publicidade, transformando o cidadão em um consumidor passivo.
O conceito central de Godard é que a revolução política exige uma revolução estética. Ele cunhou a célebre distinção: “não se trata de fazer filmes sobre política, mas de fazer filmes politicamente”. Isso se manifesta na Linguagem da Forma Cinematográfica.
O uso de montagem descontínua (jump cuts) e a interrupção da narrativa com cartazes e textos visam destruir a ilusão cinematográfica.
Godard via a linguagem cinematográfica tradicional como uma ferramenta burguesa. Ao utilizar sons assíncronos (sons que não correspondem visualmente ao que está acontecendo na tela em uma produção audiovisual)
e diálogos que desafiam a lógica linear, ele buscava libertar a imagem do controle ideológico e dos roteiros tradicionais.
Na estética e ética da imagem, ele acreditava que uma imagem bela, se desprovida de consciência histórica, é uma mentira. Em sua obra monumental Histoires du Cinéma*, ele investiga a responsabilidade do cinema diante da história, questionando por que a indústria cinematográfica foi incapaz de prever ou documentar adequadamente tragédias como o Holocausto. A política, para Godard, é a constante negociação entre o que vemos e o que a história nos impõe.
Godard foi um dos maiores críticos da hegemonia cultural dos Estados Unidos. Ele via Hollywood como o braço estético do imperialismo econômico. Sua resistência o levou a fundar o Grupo Dziga Vertov, focado na produção coletiva e anônima, influenciando movimentos de vanguarda e o Terceiro Cinema (incluindo o Cinema Novo no Brasil). Sua obra buscava dar voz às lutas de libertação nacional e aos movimentos operários, utilizando a câmera como uma extensão da barricada.
O legado de Godard no cinema político é a destruição da passividade. Ele ensinou gerações de cineastas que a técnica é uma escolha ideológica: a posição da câmera é uma posição moral. Hoje, sua influência é vista em documentaristas ensaísticos e cineastas experimentais que utilizam o cinema para questionar a realidade, em vez de apenas reproduzi-la. Godard permanece como o arquiteto de um cinema que não aceita o mundo como ele é, mas que o interroga incessantemente através do corte, do som e da fúria intelectual.

Informações Adicionais

  • Histoire(s) du cinéma (1988–1998) é uma série monumental de ensaios em vídeo dirigida por Jean-Luc Godard. Considerada a obra-prima da fase final de sua carreira, a produção explora o papel do cinema no século XX e sua relação com a história da humanidade.
  • O Grupo Dziga Vertov foi um coletivo de cinema militante e experimental fundado em 1968 pelos cineastas Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin. O nome homenageia o cineasta soviético Dziga Vertov, pioneiro do documentário e da teoria do “Cine-Olho”.

Loading

Compartilhe nosso artigo

3 thoughts on “O Cinema Político de Jean-Luc Godard

Deixe um comentário para Samuel Chaves Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *