O LENDÁRIO DIRETOR RAINER WERNER FASSBINDER

Cinema

Em 2016, tive o privilégio de estudar Rainer Werner Fassbinder sob a orientação do Prof. Sérgio Alpendre, no SESC Pinheiros — uma indicação do grande mestre Willian Hinestrosa, que por um bom período foi meu professor. Foi um dos cursos mais instigantes que realizei.

Fassbinder era um diretor obcecado pelo trabalho; gostava de repetir frases contundentes, como “posso dormir quando estiver morto”. Um dos nomes mais importantes do cinema alemão, faleceu precocemente em 10 de junho de 1982. Apesar da vida curta, construiu uma obra admirável e de enorme relevância artística.

Realizou títulos marcantes como Lili Marleen (1980) — ambientado no período da guerra — e uma trilogia emblemática: O Casamento de Maria Braun (1979), Lola (1981) e O Desespero de Veronika Voss (1982), este último premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Em cerca de 15 anos de carreira, dirigiu dezenas de longas, numerosas peças de teatro, séries e também atuou como ator.

Um traço recorrente em seu cinema é o destaque concedido às personagens femininas — motivo pelo qual não surpreende que um documentário sobre sua vida e obra tenha sido dirigido por uma mulher: a alemã Anne-Katrin Hendel (Fassbinder, 2015). Fassbinder soube condensar em sua filmografia o horror do nazismo e as impossibilidades das relações interpessoais.

O maneirismo cinematográfico costuma aparecer em obras altamente estilizadas, marcadas por escolhas formais intensas e, por vezes, artificiais. Esse estilo privilegia a forma sobre a naturalidade, utilizando o artifício estético como elemento expressivo central. No cinema de Fassbinder, isso se manifesta no uso expressivo da luz e na disposição teatral dos corpos e objetos em cena — uma encenação que frequentemente revela a mente e a psicologia das personagens.

Tendências maneiristas podem ser observadas em diferentes épocas, com destaque para os anos 1980, quando muitos cineastas adotaram a estilização como valor estético em si. Esses filmes não se encaixam exatamente no cinema clássico nem no moderno: ocupam um território próprio, conscientes de sua tradição e deliberadamente estilizados.

Foi um estudo profundo — e esse era meu objetivo desde o início: treinar o olhar para várias vertentes e estilos. Isso exigiu dedicação, pesquisa, assistir aos filmes várias vezes, analisar quadro a quadro, observar imagens, narrativas e movimentos de câmera; e, acima de tudo, tentar compreender a mente brilhante do diretor. Fassbinder era intenso, direto e sabia exatamente o que queria.

As fases de Fassbinder:

1. Primeira fase — O Anti-Teatro (1966–1969)

Impulsionados pelo sucesso obtido com a peça O Machão, dez atores do Action-Theater se desligaram do grupo e fundaram o Antiteatro — companhia fortemente inspirada em Bertolt Brecht e que se tornaria a base da primeira fase do cinema de Fassbinder.

2. Segunda fase — O melodrama e a assimilação de Douglas Sirk (1970–1976)

Após assistir a uma retrospectiva dos filmes de Douglas Sirk, mestre do melodrama hollywoodiano, Fassbinder promoveu uma grande virada em sua carreira, incorporando o drama emocional e o refinamento visual à sua linguagem.

3. Terceira fase — As provocações de Roleta Chinesa

Roleta Chinesa é um drama psicológico sombrio que culmina com um jogo de adivinhação da verdade. A trama acompanha um casal burguês cujas infidelidades são expostas por sua filha com deficiência. Um filme ousado e provocador para sua época.

4. Quarta fase — O período histórico (1977–1982)

Com o sucesso dos trabalhos anteriores, Fassbinder passou a ter acesso a orçamentos maiores, o que permitiu produções mais ambiciosas e épicas. Essa fase inclui a trilogia alemã, marcada por reflexões sobre o contexto político e as feridas da Segunda Guerra Mundial.

Um exemplo provocador de sua obra é Whity — um de seus filmes sobre o racismo nas décadas de 1960–70 — com planos longos e fixos que instigam e desafiam o espectador.

O que descrevo aqui é apenas uma pequena amostra do que Fassbinder significou — e ainda significa — para o cinema. Vale muito a pena assistir aos seus filmes e analisar sua estética singular.

“Fassbinder não filmava histórias — filmava feridas.”

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