Quando a Guerra mudou a História e a Linguagem do Cinema

Cinema História

O caos e destruição como cenário e inspiração para a ressignificação do cinema

Câmera na rua, utilização de cenários reais, utilização de atores amadores… Um cinema com uma crítica social muito engajada. Estas são algumas das principais características de um dos movimentos cinematográficos mais importantes que já existiram: o Neo-Realismo Italiano.

Esse movimento foi encabeçado principalmente pelos cineastas Roberto Rossellini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica. Na época do regime fascista de Mussolini, os filmes exaltavam os valores da família, o respeito à autoridade e a hierarquia de classes. Eram filmes extremamente panfletários e, principalmente, escapistas, que alienavam a população.

Com o término da Segunda Guerra e a saída dos nazistas da Itália, alguns realizadores buscaram fugir desta ilusão e trazer a verdade para as telas. “Roma, Cidade Aberta” de Roberto Rossellini é o marco inicial do Neo-Realismo Italiano. Na verdade, Rossellini não buscava criar um novo movimento estético enquanto produzia seu filme. Ele foi fruto de um contexto onde foi forçado a se adaptar a um pós-guerra, com a destruição dos estúdios da Cinecittà.

“Roma, Cidade Aberta” foi gravada nas ruas da cidade, que estava em ruínas devido à devastação da guerra. Existia uma carência de equipamentos e até mesmo de películas. Sem estúdios, sem recursos, não havia outra maneira de produzir cinema a não ser filmar nas ruas. A cidade de Roma, antes vista como cenário de cartões-postais, agora era retratada destruída e repleta de escombros.

Nessas condições, foi necessário ter mais flexibilidade e criatividade com relação à decupagem, que até então era engessada no formato do cinema clássico. As produções contavam com baixo orçamento, sendo difícil inclusive conseguir alimentação para a equipe de filmagem. Além disso, a falta de tempo e até mesmo de películas obrigou que a filmagem e a montagem fossem muito mais diretas, intuitivas e práticas.

Com isso, Rossellini simplificou a linguagem, utilizando câmera na altura dos olhos, sem grandes movimentos elaborados ou ângulos mirabolantes, porém com uma grande profundidade de campo, permitindo vislumbrar a devastação de Roma causada pelo conflito da Segunda Guerra Mundial.

Tanto por uma limitação técnica quanto por uma herança da época do regime, não existia uma captação direta do som nas gravações. Os atores dublavam a si mesmos posteriormente, algo, aliás, muito tradicional no cinema italiano como um todo. Se por um lado se perdia espontaneidade na captação dos diálogos e falas, por outro lado a mise-en-scène crescia em dramaticidade com os atores mais livres no espaço.

Além de todos esses elementos técnicos e estéticos, a principal força motriz do Neo-Realismo foi sua temática, que era o engajamento social, econômico e político. Tratando de temas reais e da dificuldade do cotidiano, os cineastas optaram por escalar pessoas comuns para atuarem em seus filmes e não apenas atores profissionais.

Martin Scorsese, consagrado diretor norte-americano, comentou a respeito dos filmes do Neo-Realismo Italiano: “O cenário e as pessoas parecem estar vivendo as emoções e essas situações terríveis, enquanto a câmera capturava tudo“.

O Neo-Realismo se caracterizou principalmente como um movimento de liberdade, tanto na estética quanto de expressão. O crítico e teórico francês Serge Daney enxergou em “Roma, Cidade Aberta” o marco inaugural do cinema moderno.

Além de “Roma, Cidade Aberta” (Roberto Rossellini), alguns exemplos de filmes neo-realistas incluem “Ladrões de Bicicletas” (Vittorio De Sica), “A Terra Treme” (Luchino Visconti), “Umberto D.” (Vittorio De Sica), “Alemanha, Ano Zero” (Roberto Rossellini), “O Caminho da Esperança” (Pietro Germi), “O Lão” (Alberto Lattuada), “Milagro em Milão” (Vittorio De Sica), “Arroz Amargo” (Giuseppe De Santis) e “A Estrada” (Federico Fellini).

O Neo-Realismo Italiano teve um imenso impacto no cinema mundial, influenciando gerações de cineastas e movimentos cinematográficos. Seu legado pode ser visto em escolas como a Nouvelle Vague francesa, com diretores como Jean-Luc Godard e François Truffaut; a Nouvelle Vague Tcheca, com diretores como Miloš Forman, Věra Chytilová e Jiří Menzel; a Nova Onda Japonesa, com diretores como Nagisa Oshima e Masaki Kobayashi; e a Nova Hollywood, que trouxe uma abordagem mais realista e autoral ao cinema norte-americano, com diretores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, George Lucas, Dennis Hopper, Peter Bogdanovich, William Friedkin, Roman Polanski, Sidney Lumet, Robert Altman e Brian De Palma.

 Além disso, o Neo-Realismo Italiano inspirou o surgimento do cinema africano, com diretores como Ousmane Sembène e Souleymane Cissé, que buscaram retratar a realidade social e política de seus países.

No Brasil, o Neo-Realismo Italiano estimulou o surgimento do Cinema Novo, um movimento que buscou retratar a realidade social e cultural do país, com diretores como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra. O Cinema Marginal, também foi influenciado pelo Neo-Realismo, trouxe uma abordagem mais radical e experimental ao cinema brasileiro, com diretores como Rogério Sganzerla e Júlio Bressane.

Todos esses movimentos demonstram o legado e a influência do Neo-Realismo Italiano no cinema mundial e sua capacidade de inspirar novas gerações de cineastas a retratar a realidade e a complexidade da vida humana.

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