Direção: Ángel Gómez Hernández
Elenco: Rodolfo Sancho, Ana Fernández, Ramón Barea, Belén Fabra, Lucas Blas, Nerea Barros, Beatriz Arjona, José Bermúdez, José Luis Lozano, Álvaro Fontalba, Javier Botet, Viti Suárez, Rubén Corvo, Jorge Obel, Peter Van Randen
Terror sobrenatural longe de ser brilhante, mas competente dentro do que se propõe
“Vozes”, produção espanhola lançada diretamente na Netflix em vários países, segue a fórmula clássica do subgênero de casa mal-assombrada: Daniel, um especulador imobiliário que compra, reforma e revende casas antigas com lucro, leva a esposa Sara e o filho pequeno Eric para morar temporariamente em um casarão isolado enquanto faz os reparos. O que começa como rotina vira pesadelo quando o menino passa a ouvir vozes inexplicáveis, culminando em uma tragédia devastadora. A partir daí, Daniel busca um especialista em fenômenos paranormais para entender o que está acontecendo na casa.
O texto base descreve muito bem o DNA do filme: trata-se de um grande mix de clichês tirados diretamente de obras como Horror em Amityville, Poltergeist, Invocação do Mal e outros pilares do terror sobrenatural familiar. A criança sensível que percebe o mal primeiro, as vozes sussurradas, objetos se movendo sozinhos, aparições sombrias no canto do quadro, o expert paranormal com passado traumático… tudo isso está presente, sem grandes esforços de reinvenção.
A falta de originalidade é o calcanhar de Aquiles mais evidente. Num gênero saturado como o terror de possessão/assombração, é difícil inovar de verdade, e “Vozes” nem tenta muito. No entanto, onde o filme realmente acerta é na construção de tensão e atmosfera. A direção de Ángel Gómez Hernández (em sua estreia em longa-metragem) cria momentos de aflição genuína, com uso inteligente de som (os sussurros e ruídos da casa são excelentes), iluminação sombria e enquadramentos que sugerem presenças mesmo quando nada aparece explicitamente. Há cenas que geram nervosismo real, especialmente na primeira metade, quando o terror ainda se constrói de forma mais contida.
O problema surge quando o diretor opta pelo caminho mais fácil e previsível: os jump scares. Eles são excessivos, repetitivos e, depois de meia dúzia, perdem completamente o impacto, virando quase uma piada involuntária. Em vez de confiar na tensão bem construída e no desconforto psicológico, o filme recorre aos sustos baratos com frequência excessiva, o que dilui o potencial de susto mais impactante.
Por outro lado, a trama tem pontos positivos. O roteiro entrega um plot twist interessante no terceiro ato (sem spoilers aqui), que adiciona uma camada extra de tragédia e muda a interpretação de alguns eventos anteriores. As atuações são competentes, especialmente Rodolfo Sancho como o pai desesperado e o elenco infantil, que convence na vulnerabilidade.
No fim das contas, “Vozes” é um terror sobrenatural longe de ser brilhante, mas competente dentro do que se propõe. Funciona muito bem como entretenimento, especialmente se você entrar sem grandes expectativas e gostar do estilo “assombração familiar clássica”.
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Parabéns pela Análise do filme
Parabéns pelo artigo