
UM ESTUDO ATMOSFÉRICO SOBRE FÉ, OPRESSÃO, BRUXARIA E HISTERIA COLETIVA
“Heresy”, filme de terror holandês se impõe como uma experiência sensorial densa e intelectualmente provocativa, onde o terror não se manifesta por meio de choques fáceis, mas sim pela construção meticulosa de uma atmosfera asfixiante. A obra articula com precisão a relação entre fé, repressão social e paranoia coletiva, transformando o espectador em cúmplice de um mergulho psicológico perturbador.
A HISTÓRIA
Ambientado em um vilarejo isolado durante a Idade Média, “Heresy” acompanha uma mulher marcada pela infertilidade e pela marginalização social. À medida que sua fé é colocada à prova e sua posição dentro da comunidade se deteriora, ela passa a questionar os dogmas religiosos que a cercam, fazendo então um pacto com o demônio. Entre suspeitas de bruxaria, repressão institucional e conflitos internos, sua jornada se transforma em uma espiral sombria rumo ao desconhecido — onde fé e heresia tornam-se indistinguíveis.
DIREÇÃO E CONSTRUÇÃO ESTÉTICA
A direção de Didier Konings é, sem exagero, um dos pilares mais sólidos do filme. Com um passado como diretor de arte em produções de grande escala como “Planeta dos Macacos: O Renascimento”, “Thor: Amor e Trovão”, “Mulher Maravilha” e “Rampage: Destruição Total”, Konings demonstra um domínio visual impressionante, agora aplicado em um contexto muito mais íntimo e autoral.
Aqui, sua mise-en-scène é calculada para gerar desconforto constante: enquadramentos claustrofóbicos, uso expressivo do espaço negativo e uma direção que privilegia o silêncio como elemento narrativo. O resultado é um filme profundamente atmosférico e opressivo, onde cada plano parece carregar um peso simbólico.
ROTEIRO E SUBTEXTO TEMÁTICO
O roteiro de Marc Nollkaemper constrói uma narrativa que transcende o terror convencional ao explorar questões históricas e sociais com notável sofisticação.
A obra aborda a perseguição sistemática de mulheres na Idade Média, especialmente aquelas incapazes de gerar filhos — frequentemente vistas como amaldiçoadas ou hereges. Mais do que isso, o filme mergulha na hipocrisia institucional da igreja, retratando-a como uma força opressora que manipula a fé para controlar e subjugar.
Há também uma análise contundente da submissão feminina dentro do casamento, onde maridos reforçam estruturas patriarcais que silenciam e anulam suas esposas. Esse conjunto de temas é integrado à narrativa de forma orgânica, sem didatismo, permitindo que o horror emerja das próprias estruturas sociais.
FOTOGRAFIA E ATMOSFERA VISUAL
A direção de fotografia é, sem hesitação, uma obra-prima técnica. A paleta dessaturada, dominada por tons terrosos e sombras densas, cria uma estética que dialoga diretamente com o estado psicológico da protagonista.
A floresta — elemento central da narrativa — é filmada como um organismo vivo, quase consciente, evocando uma sensação constante de ameaça. A luz natural é utilizada com precisão cirúrgica, reforçando o realismo e intensificando o caráter opressivo do ambiente.
É um trabalho de cinematografia que é maravilhosamente sombrio, opressivo e deliciosamente belo e macabro. Destaque absoluto para os planos abertos da protagonista perto da floresta e também dentro dela.
DIÁLOGO COM O FOLCLORE E O TERROR CONTEMPLATIVO
“Heresy” bebe claramente da fonte de obras como “A Bruxa” e “Hagazussa”, especialmente na forma como incorpora o folclore e o ocultismo à narrativa. No entanto, o filme não se limita à influência — ele a expande.
Konings aprofunda o aspecto psicológico e espiritual do horror, criando uma abordagem ainda mais opressiva e introspectiva. Bruxaria, ocultismo e crises de fé são tratados não como elementos externos, mas como manifestações internas da protagonista.
PERFORMANCE E CONSTRUÇÃO DE PERSONAGEM
A atuação de Anneke Sluiters como Frieda é absolutamente magnética. Sua performance é construída com uma contenção impressionante, onde cada olhar e microexpressão carregam camadas de dor, dúvida e transformação.
Ela conduz o espectador por uma jornada emocional complexa, tornando crível a transição de uma mulher oprimida para alguém que começa a questionar — e eventualmente desafiar — as estruturas que a aprisionam.
RITMO E IMERSÃO NARRATIVA
Com pouco mais de uma hora de duração, “Heresy” demonstra um domínio raro de ritmo. Não há excessos, nem momentos dispensáveis. Cada cena cumpre uma função dramática precisa, contribuindo para a construção de uma experiência coesa e profundamente imersiva.
O filme não recorre a terror gráfico ou jumpscares; sua força reside na sugestão, na tensão acumulada e na exploração dos conflitos internos da protagonista. É um terror que atua na mente — e permanece nela muito depois do fim.
UMA OBRA DE ARTE DO TERROR EUROPEU QUE NOS DEIXA COM SABOR DE QUERO MAIS
“Heresy” é uma obra que transcende o gênero ao se posicionar como um estudo sofisticado sobre fé, repressão e identidade. Didier Konings entrega um filme visualmente arrebatador e tematicamente denso, sustentado por um roteiro inteligente e uma performance central de altíssimo nível.
É plenamente justificável que o longa tenha sido amplamente elogiado nos festivais por onde passou. Trata-se de uma experiência cinematográfica imersiva, perturbadora e artisticamente refinada — daquelas que não apenas se assistem, mas se absorvem.
Ao final, fica a sensação de querer mais: mais daquele vilarejo, mais daquela floresta sufocante e, sobretudo, mais daquela inquietante jornada espiritual.
NOTA: 8
HERESY
TÍTULO ORIGINAL: Witte Wienen
LANÇAMENTO: (2024)
DIRETOR: Didier Konings
GÊNERO: (Terror/Mistério)
DURAÇÃO: 1h 1min
PAÍS: Holanda 🇳🇱
ORÇAMENTO: 358 Mil dólares
ARRECADAÇÃO: não divulgada
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Parabéns pela análise aprofundada do filme tantos nos aspectos temáticos como na cinematografia.
Agradeço, de verdade!
Fico feliz em saber que gostou da crítica, se gosta de terror, vale a pena ir atrás desse filme.