Tem show que a gente assiste…
e tem show que entra pela pele, atravessa o osso e ecoa depois, como um mantra elétrico, entrando em
nossas entranhas, no âmago da nossa alma.
No dia 26 de novembro de 2025, no novo Manifesto Bar, vivi um desses rituais raros — quase uma sessão
espírita do rock. Um daqueles momentos que não se explicam, só se absorvem e senti.
E olha que já vi coisas… já senti o ar tremer no ensaio do Deep Purple com orquestra sinfônica em 2000, 8
horas de ensaio, foi apenas mágico e privilegiado, com participação de Ronnie James Dio no saudoso Via
Funchal.
Mas ali… ali é outra estória…
O show foi celebração, era invocação, era descarga de décadas condensadas em batidas.
Era o mestre Rolando Castello Jr. — não apenas tocando, mas canalizando — 60 anos de bateria e rock pulsando como um coração amplificado no centro da sala.
E não é qualquer nome.
Rolando não é só um baterista.
Ele é um eixo. Um condutor. Um guardião de frequência.
Um homem que atravessou o tempo mantendo o pulso aceso — seja na Patrulha do Espaço, no Made in
Brazil ou no mítico Aeroblus, ao lado de Pappo, rasgando fronteiras e costurando continentes com
baquetas.
E enquanto isso… cá estamos.
Um país de memória curta, anestesiado por vitrines ocas, onde a arte muitas vezes vira embalagem de
sabão em pó, descartável. Onde vendem plástico como sentimento e chamam isso de música.
Mas o rock… o rock não se vende assim.
O Rock é Manifesto!
O rock se invoca.
E foi isso que aconteceu naquela noite.
O palco não era palco — era portal.
Uma linha do tempo distorcida sendo tocada ao vivo, reunindo a nata do rock paulistano como se fossem
entidades convocadas por um chamado invisível.
O som veio bruto, sujo, verdadeiro.
Não bateu na porta — arrombou.
Cada música era um fragmento de história reencarnado: Made in Brazil, Aeroblus, Golpe de estado, ecos
de Arnaldo Baptista, a nave da Patrulha do Espaço, além de Inox, CaSch, entre outros… e outras descargas
sonoras que não cabem em rótulo.
Nada ali era ensaiado no sentido frio da palavra.
Era vivido.
E então vieram as participações…
E o palco virou comunhão.
Corpos, instrumentos, olhares — tudo misturado numa mesma vibração. Como se ninguém estivesse ali
por acaso. Como se todos soubessem, no fundo, que estavam fazendo parte de algo irrepetível.
Não era só homenagem.
Era ritual de permanência.
E mesmo assim… ainda pouco reconhecido.
Mas talvez seja assim mesmo.
Os verdadeiros gigantes não pedem palco — eles criam dimensões.
E assistir Rolando tocar…
é ver o tempo dobrar.
Cada virada é uma memória.
Cada ataque é um grito ancestral.
Cada silêncio… é o universo respirando entre uma pancada e outra.
Não é técnica.
É transcendência.
E eu estive lá.
Presenciei. Absorvi. Fui atravessado.
Saí diferente.
Com o corpo vibrando em frequências que não se explicam, só se carregam.
Porque shows assim não acabam — eles ficam reverberando.
Na pele.
No ouvido.
Na alma.
Como um eco que se recusa a morrer.
Um dos grandes rituais ao vivo de 2025. Sem dúvida. Mágico. E eterno.
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